Cremos porque fomos amados pelo próprio Amor

Essa é a mensagem fundamental da 1ª carta de João, livro bíblico  que, neste ano, a CNBB escolheu como texto de leitura e estudo para o mês da Bíblia que, como sempre será celebrado em setembro. Esse pequeno livro, de apenas cinco capítulos, escritos em um tom muito carinhoso, foi redigido no final do século I, ou início do século II. Tem como finalidade confirmar as comunidades cristãs na fé de que Jesus Cristo, o filho de Deus, se fez gente como nós. Assumiu em tudo nossa realidade humana para nos revelar o amor divino e nos chamar a amar como Deus nos ama.

A carta começa por um prólogo belíssimo que nos confirma: a Palavra da Vida veio a nós e nós todos podemos ouvi-la e nela tocar com nossas mãos e segui-la. Essa palavra viva de Deus é a pessoa de Jesus e ele nos revela: “Deus é amor e quem ama está em Deus e Deus está com essa pessoa” (1 Jo 4, 16). Para esse mês da Bíblia – 2019, a CNBB escolheu como lema um ensinamento fundamental dessa carta que nesse ano devemos reler e estudar:  “Nós amamos a Deus, porque Deus primeiro nos amou” (1 Jo 4,19).

As sociedades antigas eram todas religiosas. Todo mundo acreditava em Deus e temia a Deus. Isso era comum. O que distinguia os cristãos era testemunhar que Deus é Amor e só se pode ser de Deus no caminho do amor. Deus não justifica ódio, violências e intolerâncias. O nome de Deus não pode justificar discriminação contra nenhuma pessoa humana e nenhum grupo. Em nome de Jesus, não se pode discriminar e ofender nenhuma religião.

Até hoje, no mundo e aqui no Brasil, há pessoas que se dizem cristãs, mas defendem uso indiscriminado de armas, se mostram a favor da pena de morte e espalham intolerâncias. Isso tem repercussão positiva em setores populares porque muita gente se sente impotente diante de injustiças e violências que vêm sendo cometidas durante séculos, contra os mais pobres.  No entanto, a Bíblia nos ensina que ódio e violência só geram mais ódios e violências. É importante nos educar socialmente para um Amor solidário que tenha como base a justiça e seja aberto a todos e a todas, recriando uma humanidade nova e que cuide com amor e respeito da nossa casa comum, a Terra e de tudo o que essa nos dá.

No Nordeste, o povo tem muita devoção a duas festas litúrgicas que ocorrem nesse mês de setembro: no dia 15 é festa de Nossa Senhora das Dores. Mais do que nunca devemos contemplar Maria como imagem profética que representa o nosso povo sofrido. Deus nos chama a honrar a Mãe de Deus nos solidarizando com as dores do nosso povo e, junto com a Caritas e as Pastorais Sociais, nos engajando concretamente para solucioná-las. No dia 17, a tradição católica celebra São Francisco das Chagas. É a evocação do momento da vida de São Francisco de Assis no qual ele assumiu em seu corpo e em sua pessoa as chagas (os estigmas) de Jesus crucificado. Hoje, podemos contemplar a figura de São Francisco carregando as chagas de Jesus no papa Francisco ao defender os migrantes, ao se solidarizar com os pobres do mundo e a insistir conosco em vivermos uma “Igreja em saída”.

 A história do santo de Assis conta que uma vez ele saiu pelas ruas da cidade, como se fosse louco, gritando: “O Amor não é amado”. Nesse mês da Bíblia, a CNBB nos convida para revermos nosso modo de crer, converter nossa visão de Deus e também nosso modelo de Igreja para dar um testemunho claro ao mundo de que “nós cremos porque fomos amados pelo próprio Amor”.

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo de Olinda e Recife