ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE

O arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido, testou positivo para Covid-19 e, com sintomas leves, está sendo tratado em casa. Na impossibilidade de celebrar a Missa de Cinzas nesta quarta-feira (17/02), enviou sua mensagem para ser lida na homilia da missa, que foi presidida pelo padre Luciano Brito, vigário geral da Arquidiocese.

Conheça o texto enviado pelo arcebispo:

HOMILIA DE DOM FERNANDO
Celebração de cinzas e abertura da CF-2021
Arquidiocese de Olinda e Recife
(Jl 2,12-18; 2Cor 5,20-6,2; Mt 6,1-6.16-18)
Catedral

Caríssimos irmãos e irmãs,

Ainda convivendo com a pandemia que tem ceifado tantas vidas no Brasil e no mundo, iniciamos nesta quarta-feira de cinzas o tempo litúrgico da Quaresma que nos prepara para a festa central da nossa fé, a Páscoa. Quaresma é tempo de conversão! Somos convidados a voltar nossa mente e nosso coração para a Palavra de Deus e atender aos seus apelos que nos motiva ao compromisso com a fé. A celebração da Páscoa é o sinal de que Deus nos dá uma força nova para ressuscitarmos de nossos cansaços, desânimos e frieza em relação ao nosso compromisso batismal. Na convivência com o coronavírus, não foram poucas as razões que levaram muitas pessoas a ceder ao desânimo. A mensagem da Páscoa chega em tempo oportuno para revigorar o ânimo abatido e nos apresentar uma mensagem de esperança confiante no Cristo ressuscitado. Para acolher bem esse tempo, é importante podermos aproveitar ao máximo a graça quaresmal.

Todos os anos temos oportunidade de revisitar os mesmos textos da Palavra de Deus que nos iniciam na Quaresma. O Evangelho nos ensina: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça diante dos homens, só para serdes vistos por eles”. Aponta em seguida três importantes valores que devem ser trabalhados pelo cristão para que possa progredir no amor de Deus: a esmola, a oração e o jejum, realizados com discrição, sem hipocrisia, para que seja um gesto autêntico, observado apenas por Deus que poderá nos dar a merecida recompensa. Nesse tempo de pandemia tivemos tantos exemplos edificantes de pessoas anônimas que viveram essa palavra do Evangelho de hoje, não somente envolvidos com as questões de saúde, mas também buscando amenizar a dor, diante dos tantos problemas sociais que se agravaram com o desemprego e a exclusão social.

O evangelho nos ensina que Jejuar é modificar a nossa atitude para com as pessoas e a natureza; passar da tentação de devorar tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Sendo capazes de renunciar a pequenos desejos, certamente nos preparamos melhor para renunciar a males que nos impedem de permanecer na graça de Deus. Ensina também a orar para nos aproximarmos de Deus, seguindo os ensinamentos e testemunho de Jesus Cristo e adquirir força para renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso individualismo, e nos sentirmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Finalmente, orienta a forma correta de dar esmola para sair da insensatez de acumular egoisticamente na ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. Dar esmola de tal maneira que a mão direita não saiba o que faz a esquerda. É preciso reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou em nossos corações: amar a Deus, amar os irmãos e irmãs, e amar toda a obra da criação encontrando neste amor a verdadeira felicidade.

Que as cinzas postas sobre nossas cabeças com o apelo: “Convertei-vos e crede no Evangelho!” nos recorde que na vida tudo é transitório. Precisamos tomar uma atitude corajosa de mudança, e somente a Palavra de Deus poderá ser Luz e apontar o rumo certo para nossa existência. É preciso não só acolher a Palavra, mas vivê-la com intensidade, testemunhando assim o nosso compromisso com a Fé. Que os sinais litúrgicos de despojamento utilizados neste tempo litúrgico, contribuam para nossa interiorização e nos recordem o valor da simplicidade como caminho de libertação e realização, pessoal e comunitária. A nossa conversão deve ser autêntica e dinâmica, como lembra o profeta Joel, na primeira leitura: “voltai para mim com todo o vosso coração, com jejum, lágrimas e gemidos; rasgai o coração e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Jl 12-13).

Os tantos sofrimentos porque passam nossos irmãos/ãs, sobretudo das regiões mais sofridas do norte e nordeste do Brasil, nos identificam muito com a paixão de Jesus e precisamos nos esforçar para superar tudo isso, fazendo nossa parte e lutando pelos nossos direitos. O que não pode acontecer é desanimar diante da dor, mas procurar sim, confiantemente, alimentar a esperança. Essa é a profecia que a Igreja deve anunciar sempre, motivando à unidade na busca da superação dos problemas que nos são comuns. É tempo de trabalhar nossa conversão permanente, pessoal e comunitariamente. Isso é graça divina que precisamos acolher e desenvolver.

A Campanha da Fraternidade que, mais uma vez, iniciamos hoje, foi assumida nacionalmente pela CNBB em 1964, quando o Concílio Vaticano II estava caminhando para sua conclusão. O objetivo inicial da CF era aplicar as propostas do Concílio no Brasil, através de uma pastoral de conjunto, assumida por todas as dioceses do país e pelas forças vivas da Igreja. A intuição fundamental é que, para vivermos a fé precisamos caminhar na solidariedade, cuidar mais intensamente da fraternidade entre as pessoas e valorizar a natureza como dom de Deus e, desta forma, amá-la e respeitá-la, como tem nos falado tão claramente o nosso papa Francisco.

Mesmo se o tema da Campanha Ecumênica da Fraternidade de 2021 já tenha sido decidido antes da pandemia, de fato, vem responder aos desafios deste momento do mundo e também das Igrejas. Pela quinta vez, a CF é realizada em comum entre a CNBB e o CONIC, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs. Desta vez propõe como forma de intensificar o caminho pascal, a preocupação e a espiritualidade do Diálogo. De fato, o diálogo é um desafio para toda humanidade e para cada ser humano. Sem diálogo não se construirá a fraternidade universal que o papa Francisco propõe em sua mais recente carta-encíclica Fratelli Tutti. Procuremos acolher a CF-2021 com amor, sem cair na tentação de condená-la por razões ideológicas. Na reflexão do ver o texto-base condena todo tipo de discriminação, inclusive a homofobia, sem em momento algum defender bandeiras, mas sim o respeito à criatura humana. Na fé bíblica, como tão bem expressou o papa São Paulo VI: “Foi Deus quem iniciou o diálogo com a humanidade e nos ensinou a dialogar” (Encíclica Ecclesiam Suam, 2). Foi tomando a iniciativa de dialogar e provocando diálogo que Jesus testemunhou e anunciou ao mundo o reino de Deus.

Quem olha com certa profundidade a humanidade atual percebe que o mundo parece uma imensa Babel. Mesmo se em nossos computadores existem diversos programas de tradução simultânea de idiomas, os significados que damos às palavras parecem cada vez mais distantes e conflitantes. No mundo social e político, opinião pública, comunicação, democracia e direitos humanos podem ter significados diferentes e mesmo opostos. No âmbito das religiões, os movimentos que mais crescem no mundo são os diversos tipos de fundamentalismos. No Cristianismo, no Islã, ou nas tradições orientais, aumentam os grupos que se fecham em dogmatismos. Não percebem que a fé jamais poderá conviver com violência física, verbal, ou de qualquer outro tipo. O caminho da fé, qualquer que seja sua expressão religiosa, só pode ser o amor e o diálogo. Por isso, é muito oportuno e importante que, neste ano de 2021, o nosso caminho quaresmal e pascal seja aprimorar em nós mesmos a capacidade de dialogar e fazer do diálogo tema de reflexão e oração, gerando, em consequência, práticas e estruturas que se alimentam do diálogo e o sustentam.

Na CF 2020, o tema era o cuidado do outro. Fomos, então, chamados a voltar-se para as outras pessoas e para a natureza com reverência e atitude de acolhida, principalmente atentos a suas vulnerabilidades e ajudando as pessoas a se levantarem. Agora, somos convidados a contemplar a Páscoa de Jesus como um ato de amor à humanidade que nos chama ao diálogo em todas as suas dimensões.

Quem ainda separa fé e vida, fé e caridade, teme que a Campanha da Fraternidade possa ofuscar o nosso olhar e nos distrair da centralidade do Mistério Pascal. Ao contrário, traz para nós no cotidiano da vida, o apelo pascal do Ressuscitado que quer nos encontrar como veio aos discípulos na tarde do domingo da Páscoa e nos dar, como deu a eles, a paz, a alegria e a reconciliação entre nós, cristãos, assim como a missão de semear e transmitir ressurreição para toda a humanidade e para a nossa terra ferida.

Que esta CF 2021 ajude as nossas Igrejas, membros do CONIC e todas as Igrejas cristãs a sairmos desta pandemia mais unidas e comprometidas com a Paz, a Justiça eco-social e a fraternidade humana, como o papa Francisco propõe: “Sonhemos com uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos e filhas desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos e irmãs” Encíclica Fratelli Tutti, n. 8).

Ao celebrar nessa Páscoa, o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus, somos chamados a entender que a paixão de Jesus se expressa hoje, no sofrimento do povo pobre que enfrenta, além dos problemas com a saúde, o aumento do desemprego, a deterioração das suas condições de vida e a negação básica dos seus direitos fundamentais e constitucionais, como educação, moradia, segurança e outros. Assim nos ensina São João Crisóstomo: “O Cristo ressuscitado vem dar a cada um de nós, às nossas comunidades eclesiais, e a toda a criação que nos rodeia, uma vida ressuscitada”. O que não pode acontecer é perdermos o entusiasmo e a capacidade de lutar, afinal somos chamados a sermos profetas da esperança. Nossa força está na unidade fraterna.

Desejo a cada um/uma de vocês uma santa e renovadora Quaresma e Páscoa do Senhor.

Amém!

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo de Olinda e Recife