O aposentado Rogério Matos, acusado de ser o assassino do religioso e absolvido posteriormente, prestou depoimento nesta quinta-feira
A investigação do assassinato do Padre Henrique, religioso ligado ao então arcebispo de Olinda e Recife, dom Helder Câmara, continua confusa e cheia de personagens que, apesar de fortemente ligados ao crime, parecem atrapalhar um jogo de quebra-cabeças interminável. Com o rosto visivelmente castigado pelo tempo, que não lembra a altivez e os cabelos pretos abundantes da juventude, o aposentado Rogério Matos do Nascimento, acusado pelo assassinato do religioso em março de 1969 e absolvido posteriormente pela justiça, negou testemunhos do passado e apresentou um “novo culpado” para o caso em depoimento à Comissão da Memória e da Verdade, realizado nesta quinta-feira (22) ontem na secretária estadual de Direitos Humanos.
Com um relato confuso, o ex-acusado pela morte do religioso “escorregou” em diversos momentos. Perguntado, por exemplo, se sabia da existência do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que perseguia militantes de esquerda na época da ditadura militar (1964-1985), desconversou e negou. Mas, ao mesmo tempo, chegou a corrigir informações de membros da Comissão da Verdade sobre onde se reuniam membros da facção de extrema direita, que segundo ele, seria numa sorveteria localizada no bairro do Derby, na capital pernambucana.
“Eu acredito que o CCC foi o responsável pela morte do padre”, disse Rogério Matos, depois de ser pressionado diversas vezes pelos membros da comissão, como o ex-deputado estadual Pedro Eurico, que endossou que todos os crimes estariam prescritos e que o depoente também teria direito às prerrogativas da Lei da Anistia.
Mais à vontade, Matos então declarou que acreditava que o responsável pela morte do Padre Henrique seria empresário Roberto Souza Leão, já falecido. “Quando eu estava na prisão, Eronildes Cavalcanti (condenado pela morte do procurado Pedro Jorge, do “Escândalo da Mandioca”) me disse que Roberto seria o assassino”, revelou, sem dar maiores esclarecimentos da intenção do empresário na morte do religioso.
Para o membro da Comissão da Verdade e advogado criminal Gilberto Marques, esta versão pode estar associada a uma possível “vingança” do major Ferreira ao empresário. “O major Ferreira foi preso numa fazenda de Roberto Souza Leão na Bahia. Eles eram amigos, parceiros. Talvez, por ter sido preso nesta propriedade, o major pensou que teria sido traído pelo amigo e lançou esta versão para prejudicá-lo”, completou.
No dia da morte de Padre Henrique, Rogério Matos chegou a declarar em depoimento à polícia, até então em sigilo até o começo dos trabalhos da Comissão da Verdade, que teria se encontrado com sua namorada e o agente “X-9” Henrique Pereira Filho, num trecho da Avenida Agamenon Magalhães, no Recife. No depoimento de ontem, negou a versão dada pela namorada de que teria afirmado que matou o religioso e chegou em casa com as botas sujas de lama. “Todas estas versões são caluniosas. Quem me falou da morte do padre Henrique foi minha mãe, no outro dia”, repetiu várias vezes.
Reportagem: Tércio Amaral
Fonte: Diario de Pernambuco







