ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE

Na noite desta quinta-feira, 11 de setembro, quando completou 53 anos de vida, o vigário geral da Arquidiocese de Olinda e Recife monsenhor Luciano Brito recebeu o título de Cidadão Pernambucano na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Nascido na cidade de Piranhas, em Alagoas, o presbítero chegou ao Recife em 1998 ainda como seminarista. Concluiu os estudos em Roma e, quando ordenado padre, em 2002, assumiu sua primeira paróquia na Arquidiocese: a de São Paulo Apóstolo, em Jardim São Paulo. Depois, foi pároco de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Piracicaba, Nossa Senhora de Fátima em Boa Viagem e administrador na Paróquia da Torre. Hoje, é pároco de Nossa Senhora das Graças, no bairro das Graças.

Em seu discurso, o padre revelou que sua “pernambucanidade” vem da época de seu avô Francisco Rodrigues, que nasceu em Jatobá de Tacaratu, hoje Petrolândia. “Ele fez o sangue pernambucano correr em minhas veias, antes que meus olhos tivessem o prazer de contemplar as terras de Pernambuco, fecundas de fé, história e cultura marcadas pela bravura. Meus ancestrais são sertanejos”. Para o padre Luciano Brito, ter nascido às margens do São Francisco também ajudou no processo de se tronar pernambucano. “Pernambuco se junta com Alagoas no meu coração desde a primeira vez que eu recebi as águas do velho e amado rio São Francisco, creio que na fonte batismal”, conta. “Daquele momento até hoje, e por toda minha vida, eu serei sempre alagoano, pernambucano, nordestino, brasileiro, com toda alegria de servir ao povo de Deus ao Evangelho de Jesus Cristo”.

O título de Cidadão Pernambucano foi proposto pelo deputado estadual Sileno Guedes e aprovado por unanimidade em plenária: 49 deputados estaduais votaram Sim. Para Sileno, a honraria foi, na verdade, o reconhecimento de uma vida inteira dedicada às pessoas que mais precisam. “Fico feliz em ter sido instrumento para esse título, porque o padre Luciano é meu pároco, meu amigo, querido por todos que o conhecem”, concluiu.

Além do propositor do título, estavam na mesa das autoridades pessoas importantes para o homenageado, como sua mãe Sônia e o arcebispo emérito dom Fernando Saburido. Sobre a homenagem, o arcebispo disse que “é um título muito justo e que está chegando muito tarde; há mais tempo deveria ter sido reconhecido como pernambucano”. Dom Fernando justifica sua fala com uma série elogios à pessoa do padre Luciano, garantindo que, desde sua chegada, o jovem alagoano abraçou a Igreja de Olinda e Recife com muita dedicação. Além do bispo, fizeram parte da mesa, ainda, o prefeito João Campos e seu irmão, o deputado federal Pedro Campos.

Foi uma noite para encontrar os amigos. O auditório Senador Sérgio Guerra, na Assembleia Legislativa de Pernambuco, estava lotado para a entrega do título. Um vídeo mostrou a mensagem do arcebispo dom Paulo Jackson, que está no Encontro das Conferências Episcopais em Portugal. Os auxiliares, dom Josivaldo e dom Nereudo, estão no Curso para Novos Bispos, em Roma, na Itália, e também enviaram mensagens.

A fala do homenageado, que era também aniversariante do dia, emocionou os presentes e confirmou o quão pernambucana é sua vida. Padre Luciano riu e fez rir, cantou, contou histórias. Tudo acompanhado de perto por seus familiares que vieram da cidade de Piranhas, em Alagoas. Na cerimônia, houve muita música. O novo cidadão pernambucano cantou o Hino de Pernambuco sem erros e acompanhou com alegria os músicos do Movimento Pró-Criança e os artistas Cristina Amaral e Almir Rouche, que encheram o auditório com pérolas da cultura do estado: o hino do bloco carnavalesco Madeira do Rosarinho, a canção Leão do Norte, composta por Lenine, e a Ave Maria Sertaneja, eternizada na voz de Luís Gonzaga.

Conheça o discurso preparado pelo monsenhor Luciano Brito:

DISCURSO DO PADRE LUCIANO JOSÉ RODRIGUES BRITO

“O segredo, o mistério,

o que nunca se sente,

o que nunca se diz à falta de palavras:

eis o mais belo da vida e o mais profundo,

o inexprimível, o mistério,

o segredo, o sagrado:

o que sempre se sente,

o que nunca se diz.

O deus que dorme em ti ao lado do demônio.

O demônio que há em ti no melhor do que fazes.

O deus que mora em ti no teu pior pecado.

O homem que sou, eu, essa mistura…

Esse ser relativo,

essa ausência de força

na graça ou no pecado

Essa mediania…”

                                   (Daniel Lima)

Meus irmãos e minhas irmãs,

Com estes versos do padre Daniel Lima, pernambucano de Timbaúba, ensaio uma palavra de gratidão ao estado de Pernambuco, desta vez colocando por escrito o que declamo com meu olhar, cada vez que me vejo admirando a “Terra dos altos coqueiros, de beleza soberbo estendal”, como diz o nosso hino.

O autor do Livro do Genesis conclui o relato da criação com essas palavras: “E Deus viu que tudo era muito bom”. Toda a Sagrada Escritura é um grande louvor ao Pai criador. Desejo louvar ao Criador por tudo que Ele tem realizados nestes meus 53 anos de vida. Nasci nesta data, a 11 de setembro de 1972, em Piranhas, nas Alagoas, embora tenha sido dado à luz na vizinha cidade de Delmiro Gouveia, dada a gravidade daquele que foi o último parto de minha mãe, Sônia Maria Britto Rodrigues, aqui presente, realizando a memória viva de meu pai, Celso Rodrigues Rego, que da eternidade nos acompanha, no mistério da comunhão dos santos.

Muito me orgulha dizer que meu avô paterno é um ícone sem o qual perece a história do cangaço. Ele enfrentou, com apenas um companheiro a seu lado, uma parte do bando dos famigerados Corisco e Gato, que quiseram invadir Piranhas, para tocar o terror em vingança ao que a volante estava realizando em seu desfavor. Francisco Rodrigues Pereira que, no Sobrado, chamávamos apenas de Vô ou Vô Chiquinho, nasceu em Jatobá de Tacaratu, hoje Petrolândia. Ele fez o sangue pernambucano correr em minhas veias, antes que meus olhos tivessem o prazer de contemplar as terras de Pernambuco, fecundas de fé, história e cultura marcadas pela bravura. Meus ancestrais são sertanejos.

Louvo e agradeço a Deus pela fé cristã católica, plantada e regada nesta terra por corajosos missionários e missionárias ao longo dos séculos. Este título, portanto, pertence-me somente à medida em que pertencer a quem me constitui, na finitude humana e na infinitude espiritual: meus ancestrais e esta Arquidiocese de Olinda e Recife, criada em 1676, prestes a celebrar seus 350 anos de criação canônica, legado de fé e compromisso com o Evangelho, que fez nascer uma Igreja viva, marcada pela força da oração e o compromisso com os mais necessitados, os preferidos de Jesus Cristo. Aqui saúdo cada uma das dez dioceses de nosso Estado, onde a fé católica chegou e fecundou corações generosos para servir a Cristo e aos irmãos. Um louvor especial ao Seminário de Olinda, oásis da formação espiritual, intelectual e humana de gerações de brasileiros, desde sua fundação em 1800 por Dom Azeredo Coutinho, bispo de Olinda, que fez daquele espaço um lugar de conhecimento filosófico, teológico e humanístico, deixando no coração dos estudantes o ardor da fé e o poder transformador da Cruz libertadora de Jesus Cristo para todas as gerações.

Louvo a Deus pelos arcebispos com quem convivo desde 1996: Dom José Cardoso, que me acolheu como seminarista e me ordenou diácono e padre para servir ao povo de Deus; Dom Fernando Saburido que sempre esteve e está ao meu lado, confiando tantas missões durante seu pastoreio, um pai e irmão querido; Dom Paulo Jackson, que nesses dois anos de pastoreio não só confirmou nosso trabalho, como também assumiu sua paternidade espiritual de forma tão generosa. Aos bispos auxiliares Dom Josivaldo e Dom Nereudo, pernambucanos como eu, gratidão pela confiança fraterna. Louvo e agradeço a Deus pela vida e amizade de todos meus irmãos padres, diáconos, religiosas, religiosos, seminaristas, leigos e leigas que juntos trabalham pelo crescimento do Reino de Deus com fé e alegria em servir a todos e promover o bem comum. Como fiz no dia de minha ordenação presbiteral, não posso deixar de negritar o nome dos servos de Deus que sempre inspiram minha vocação: Dom Vital, Dom Helder, Frei Damião e Padre Cícero Romão.

Louvo e agradeço ao Pai pelo nosso Recife, esta cidade que me ensinou a ser pernambucano, começando no querido bairro de Jardim São Paulo, com o povo de Deus nas paróquias São Paulo Apóstolo e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Ali, fui moldado pelo testemunho da luta, trabalho, dignidade e fé. Tenho a honra e a alegria de me ter tornado cidadão recifense em fevereiro de 2011, pela proposição de nosso amigo Josenildo Sinézio, na época, vereador da cidade do Recife. Era uma sexta-feira da prévia de carnaval e a paróquia organizou uma recepção com o querido e festejado Bloco das Flores. Quis a Providência Divina que nossa missão saísse da zona oeste da cidade e fosse exercida na zona sul, no ano de 2016. Fui recebido pelos paroquianos de Nossa Senhora de Fátima, em Boa Viagem, onde aprendi a arte do acolhimento para com todos que passam no nosso Recife. Ali rezamos, cantamos, e com Cristo e sua Mãe Santíssima, passamos as preocupações e angústias da Covid-19. Após concluir o tempo canônico de permanência naquela paróquia, assumi a administração da Paróquia da Torre, auxiliando nosso irmão, Monsenhor Romeu da Fonte, passando assim, a residir na zona norte da cidade, onde desde janeiro de 2023, juntamente com os irmãos Pe. César, Pe. Fábio e o Diáono Aerton, estamos com os irmãos e irmãs da Paróquia das Graças, anunciando e testemunhando o amor de Cristo.

Neste momento, louvo e agradeço pela imensidão do Atlântico que, nascido da união do Capibaribe e Beberibe, bateu tanto na costa leste do continente americano, mais precisamente entre os meridianos 34°48’33”, que fez nascer nosso querido Pernambuco, já que na língua tupi-guarani, a palavra Pernambuco significa “onde o mar se arrebenta”.

Louvado seja o Criador por ter concedido a esta “terra dos altos coqueiros”, belezas singulares e um povo altaneiro, corajoso e forte. Abraço minhas conterrâneas e meus conterrâneos dos 185 municípios do estado que é “nova Roma de bravos guerreiros”. Do litoral de Goiana a Tamandaré, águas mornas, sol, verdes matas, coqueirais, rios e uma brisa que aquece o coração, fazendo-nos falar com Deus e cantar os amores da vida. Da Zona da Mata, com cheiro de cana-de-açúcar e fartura dos canaviais. Do Agreste, com sua pungente e diversificada economia. Do Sertão, uma explosão da natureza que resiste à seca e, às primeiras chuvas, brota verde e exuberante na flor do mandacaru, trazendo vida aos riachos e rios da região, cantados pelo nosso conterrâneo e mestre de todos nós, Luiz Gonzaga. “Riacho do Navio corre pro Pajeú, o Rio Pajeú vai despejar no São Francisco, o Rio São Francisco vai bater no meio do mar…”. Em todo o território do nosso estado, manifesta-se a beleza do Criador.

Louvado seja Deus pelo testemunho dos homens e mulheres pernambucanos que fazem da boa política um caminho para o bem. Na pessoa do deputado Rodrigo Farias, saúdo cada qual dos demais membros da Casa do Povo Pernambucano e agradeço a todo o gabinete do deputado Sileno Guedes, este amigo meu, amigo da Arquidiocese de Olinda e Recife, amigo da minha família, pela honra com que sou distinguido. Em sua pessoa está a lealdade de um fidalgo que serviu bravamente àquele que sonhava em levar para a presidência do Brasil o legado que já havia recebido de seu avô Miguel Arraes, e cuja família homenageio, enaltecendo a herança do inesquecível Eduardo Henrique Accioly Campos , assumida por seus filhos João, à frente do Executivo recifense, e Pedro, legislando em prol do nosso povo na Câmara Alta. Ainda que eu não possua filiação partidária alguma, nasci um Rodrigues e Britto, filho de famílias que marcam a história da vereança e da prefeitura de minha terra, com as quais aprendi a dialogar para além das fronteiras de nosso credo, com independência e mútuo respeito, como ensinou-me meu pai, que por quatro vezes chefiou o nosso executivo piranhense. A amizade é uma riqueza que cabe em qualquer lugar da existência, ainda mais quando é somente por ela que estabelecem-se pontes pelas quais trafegam os benefícios sociais para o povo que nós evangelizamos. Por isso, agradeço também aos amigos Raul Henry, Paulo Câmara, Geraldo Júlio, Marília Arraes, nas pessoas dos quais saúdo todos meus amigos e amigas que fazem da política um itinerário do exercício do bem comum para a sociedade. A todos os amigos e amigas que ocupam missões nos diversos segmentos de nosso estado – executivo, legislativo, judiciário, militar, empresarial de comércio e serviço – gratidão por estarem comigo hoje e sempre.

Louvo e agradeço à Trindade Santa por ter permitido e abençoado minha vida desde o ventre de minha mãe, Dona Sônia Brito, que juntamente com meu saudoso pai Celso Rodrigues, ensinaram a mim e a meus irmãos a arte de viver com fé e dignidade, construindo amizades verdadeiras. Aos meus sobrinhos, cunhadas, tios e primos das famílias que me geraram, gratidão por permitirem minha presença em todos os momentos de risos e lágrimas. A meu tio Gilson Cordeiro, obrigado pela presença nesta solenidade.

Louvo e agradeço a intercessão generosa de Nossa Senhora da Saúde, padroeira da minha cidade natal, Piranhas, Alagoas, por ter abençoado a vida de todos nós, piranhenses, aqui representados por tantos amigos e amigas. Piranhas é lugar de raríssimas belezas, onde as serras de pedras cobertas de caatinga acolhem o grande milagre de Deus para o nordeste brasileiro, nosso amado Rio São Francisco, que fez minha prima Rosiane Rodrigues cantar: “Piranhas, com amor, escrevo essa canção para você, terrinha no sertão de gente hospitaleira pra valer”.  À APLA, Academia Piranhense de Letras e Artes, guardiã de nossa cultura, gratidão. Por tudo na vida, louvo e agradeço ao Senhor. Obrigado por ser cidadão pernambucano, obrigado por ser filho do estado brasileiro que ostenta em sua bandeira a Cruz de Cristo, o arco-íris da igualdade, o sol e a estrela que brilham sobre o azul do céu.

Parafraseando Lenine, meu conterrâneo, posso cantar com todo ardor do meu coração: Eu sou mameluco, sou de Casa Forte, sou de Pernambuco, eu sou o Leão do Norte.

Viva Pernambuco, meu lugar e de todos nós. Viva o Brasil!

Monsenhor Luciano Brito
Vigário Geral da Arquidiocese de Olinda e Recife