ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE

Neste ano de 2021, no Mês missionário, que a Igreja Católica sempre celebra no mês de outubro, somos convidados a aprofundar como tema o próprio núcleo fundamental da missão. Esta não tem como conteúdo uma doutrina ou princípio e sim o anúncio de uma pessoa: Jesus Cristo. Vivemos a missão com a mesma alegria com a qual apresentamos alguém que nos é muito querido a cada pessoa que amamos.

Houve épocas nas quais a missão era considerada como o trabalho de propagar a Igreja e dizia respeito especificamente a missionários e missionárias nos chamados “países de missão”. Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja compreendeu que a missão é algo muito mais básico e inerente ao próprio ser Igreja e ao modo de viver a fé. Nada tem a ver com publicidade. Nem pode ser confundida apenas com os esforços para aumentar no mundo o número de católicos. Trata-se da relação pessoal e comunitária com Jesus que toda pessoa batizada é chamada a aprofundar e testemunhar aos outros. 

Só podemos nos alegrar de que, neste ano, o Mês Missionário nos convide a aprofundar o conteúdo essencial da própria Missão como tema e objetivo da nossa reflexão. Desde 1972, cada ano, as Pontifícias Obras Missionárias (POM) têm a responsabilidade de organizar a Campanha Missionária. Aqui no Brasil, essa campanha é assumida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), através dos organismos que compõem o Conselho Missionário Nacional (COMINA).

Para desenvolver o tema “Jesus Cristo é missão”, poderíamos tomar uma quantidade imensa de textos do Novo Testamento. No entanto, essa campanha missionária escolheu como inspiração bíblica a palavra dos apóstolos Pedro e João, quando as autoridades religiosas de Jerusalém os advertiram de que estavam proibidos de anunciar o nome de Jesus Cristo. Eles responderam: “Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos” (At 4,20).

Esse versículo parece extremamente adequado ao contexto atual que vivemos. Com toda a humanidade, estamos a quase dois anos, vivendo o sofrimento da pandemia que nos isolou uns dos outros. Até agora, ainda nos sentimos obrigados a manter os protocolos sanitários de segurança e sofremos as consequências que a pandemia provoca na sociedade. Em todo o mundo, as desigualdades sociais e injustiças estruturais têm sido agravadas.

Estamos todos ansiosos para retomarmos a dinâmica habitual de nossas atividades paroquiais e arquidiocesanas. No entanto, não devemos nos precipitar enquanto existe o mínimo risco de contágio e saber que o essencial da nossa missão é o que o papa Francisco recordou na sua mensagem para a Campanha Missionária de 2021 e para o dia mundial das Missões: “Neste tempo de pandemia, perante a tentação de mascarar e justificar a indiferença e a apatia em nome de um distanciamento social saudável, a missão de compaixão é urgentemente necessária por sua capacidade de fazer desse distanciamento recomendável uma oportunidade de encontro, cuidado e promoção

A mensagem do papa deixa claro que a missão não consiste apenas em tarefas pontuais. Nem se resume a manter a prática religiosa a qual nos habituamos. Essa é importante à medida que se liga ao testemunho vivo, concreto, existencial de amizade a Jesus e ao esforço de nos tornarmos permanentemente parecidos com Ele. Como em outra mensagem sobre a missão, afirmou o papa Francisco: “Só assim pode florir o milagre da gratuidade, do dom gratuito de si mesmo. O próprio ardor missionário nunca se pode obter em consequência de um raciocínio ou de um cálculo. Colocar-se “em estado de missão” é um reflexo da gratidão» (Francisco,Mensagem às Pontifícias Obras Missionárias, 21 de maio de 2020).

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo de Olinda e Recife