ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE

PASCOM AOR
Fotos: AOR e Fernando Portto – Seres / PE

11987190_818014548315748_2010091361813950248_nOnde muralhas e grades de ferro fazem o sol da liberdade brilhar de forma tímida, 535 mulheres dividem espaço destinado a 180 na Colônia Penal Feminina de Abreu e Lima (CPFAL). Sentenciadas vivem no regime fechado ou semiaberto. A maioria delas caiu por tráfico de drogas. Crime, talvez, mais brando e invisível aos olhos da sociedade. Delito cometido em nome do amor ou do desespero. Mulheres que sofrem pelo abandono dos companheiros e encontram na família o apoio necessário. A superlotação e a carência afetiva são duas das maiores penas às quais são obrigadas a pagar. Entre a dor e o renascimento, algumas encontram no estudo e no trabalho a dignidade.

Foi esse lugar cheio de contrastes que o arcebispo metropolitano, dom Fernando Saburido, visitou na tarde desta quinta-feira, 10. As idas aos presídios localizados no território da Arquidiocese de Olinda e Recife passaram a fazer parte da agenda do religioso. A cada dois meses, ele procura levar conforto espiritual e esperança aos educandos. A visita pastoral é feita em conjunto com a Pastoral Carcerária. O secretário de Justiça e Direitos Humanos, Pedro Eurico participou do evento.

Dom Fernando aproveitou o mês dedicado ao estudo e reflexão da Bíblia para presenteá-las com exemplares dos Evangelhos. Ele entregou os livros e recomendou que lessem e meditassem de forma especial os capítulos 5, 6 e 7 de Mateus. “Essas passagens relatam o Sermão da Montanha no qual Jesus fala das bem-aventuranças. Rezem porque isso vai trazer paz para vocês. Vocês precisam voltar para os seus lares porque lá é o lugar ideal para estarem”, aconselhou. A diretora da CPFAL, Alcileide Araújo, recebeu um Livro Sagrado representando os funcionários.

11986556_818014504982419_7205989132304750326_nO arcebispo conheceu os pavilhões, celas, isolamento, salas de aula e locais de trabalho. Rezou e abençoou as internas. O contato com o religioso foi um alento para muitas delas. Emocionada Maria (nome fictício) afirmou estar lutando contra um câncer. “Reze por mim. Não aguento mais. Eu estava costurando e vim ao encontro desse homem abençoado porque nunca o tinha visto tão perto. Foi Deus que mandou ele aqui. Sou devota de Nossa Senhora. Rezo o Terço todos os dias”, disse.

Com um sorriso, Cláudia (nome fictício) contou ao arcebispo que esteve na Missa de posse dele há seis anos no Marco Zero, bairro do Recife. Ela foi presa por tráfico transportava para um presídio quando foi descoberta. Os quatro anos de detenção a fizeram traçar planos para o futuro. “Eu me regenerei. Estou formada. Conclui os estudos. Quero outra vida”, garantiu.

Cotidiano

Na Colônia Penal, elas estudam da alfabetização até o Ensino Médio. O tempo ocioso é empregado nas oficinas de artesanato ministradas pelas agentes da pastoral e pelas Irmãs do Sagrado Coração de Jesus. Nos cursos, elas aprendem a confeccionar almofadas, bonecas, e a arte da pintura e do crochê. Produtos vendidos durante os dias de visita.

_DSC0047Profissionalmente, o Senac e Senai oferece cursos de cabeleireira e neste segundo semestre haverá também de modelista. Três empresas investem na recuperação delas. Enquanto umas mulheres embalam formas de papel para doces de festa, outras; costuram lençóis. De acordo com a diretora, à frente da unidade há quatro anos, muitas delas são admitidas pelas firmas quando ganham a liberdade. Sobre a visita de dom Fernando, a gestora destacou a importância do evento. “Num ambiente cheio de carência e sem esperança e numa sociedade onde as educandas são tratadas como bichos que devem ser isolados, vê uma pessoa Ilustre deixar os compromissos para visitá-las, reanima. É muito bom saber que tem alguém rezando por nós”, contou Alcileide.

A diretora revelou que mesmo mantidas longe das ruas, elas não perdem a vaidade. Sempre procuram arrumar os cabelos e cuidar das unhas. É uma forma de se sentir mulher. “A convivência diária nos faz ver essas pessoas pelo lado humano. São tantas histórias de vida difícil, marcadas pela miséria e violência”, disse.

Solidariedade

As ações da Pastoral Carcerária na Colônia Penal Feminina vão desde ao ensino de artes manuais à evangelização. Momentos de escuta fazem parte da didática adotada pela equipe. Os agentes dedicam o tempo na luta pelos direitos e dignidade dos encarcerados. As atividades são feitas em parceria com congregações religiosas e paróquias. Em Caetés 2, onde fica a penitenciária visitada por dom Fernando, a Paróquia São João Bosco abraçou a causa.

11987056_818014518315751_4620334175422012131_nOs fiéis participam da campanha “Adote uma reeducanda” contribuindo com materiais de higiene pessoal principalmente com absorventes. Artigo tantas vezes tido como de luxo. Os kits são distribuídos quinzenalmente.

Alcileide falou sobre o preconceito sofrido pelos filhos das detentas. “Temos muita dificuldade em conseguir doações para as crianças. Elas pagam pelo crime que não cometeram. Já são privadas do convívio das mães e ainda assim não têm o direito de serem crianças como qualquer outra”, desabafou.

Visitas

As visitas pastorais do arcebispo às unidades prisionais estão sendo realizadas de forma periódica. A primeira ocorreu no dia 8 de julho na Penitenciária Juiz Antônio Luiz Lins de Barros (PJALLB), no Complexo do Curado, Zona Oeste do Recife. A próxima está marcada para o dia 4 de novembro e será o Presídio de Igarassu, na Região Metropolitana do Recife.