Nos bancos da igreja, de frente para o altar, havia uma comunidade. Todos enxergavam, com o coração, o Jesus Salvador. Todos foram até Ele, não levados por pernas ou pés, mas pela fé. Ali, ouvia-se ou via-se a Palavra. O texto, aparentemente poético, traduz a tarde deste sábado (10/09), quando foi celebrada na Matriz dos Remédios a missa em ação de graças pela criação da Pastoral da Inclusão.
Um coral formado por deficientes visuais da Associação Beneficente dos Cegos do Recife (Assobecer) enchia o lugar com música ouvida por alguns e vista por outros, mas sentida por todos. Primeira leitura e salmo foram lidos em braile; segunda leitura foi lida por uma religiosa que acompanha a criação da Pastoral. Dois intérpretes de libras se revezavam na missão de “falar com as mãos”.
Presidida pelo arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, a missa foi concelebrada pelo Pe. Jurandir Dias Júnior, que traduziu em linguagem de sinais a homilia de Dom Fernando. “Para a Igreja vocês são pessoas importantes pois nos dão a oportunidade de fazer o bem, de praticar a inclusão, como nos revelam as parábolas da ovelha perdida e do filho pródigo. Uma deficiência não é motivo para acomodação; pelo contrário, é um desafio para que se possa caminhar e dar o testemunho para o mundo que não são essas coisas que impedem a verdadeira felicidade”, disse. O arcebispo lembrou ainda que a Palavra de Deus é um livro de vida e não uma teoria, simplesmente, de modo que devemos colocá-la em prática, mesmo nas dificuldades, “como as pessoas cegas que caminham nas ruas, ajudando-se mutuamente, com as mãos no ombro do outro, solícitos, alegres e felizes”, concluiu.
Pe. Jurandir, que é pároco da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, de Nova Descoberta, será o presidente da Comissão Arquidiocesana de Pastoral para a Inclusão. Ele, que desde cedo aprendeu a linguagem de sinais, lembra que, para cumprir o mandado que Jesus Cristo nos deixou “Ide e pregai o Evangelho a todas as criaturas”, a Igreja tenta chegar a todos para que a pessoa seja evangelizada conforme suas especificidades, fazendo com que todos se sintam filhos de Deus. Para isso, segundo o padre, a primeira barreira a ser vencida é a barreira da atitude. “Nós devemos abrir em nosso coração um espaço para que o outro possa entrar, e a partir dessa predisposição, teremos condições de aprender a língua dos surdos, o braile dos cegos, observar as necessidades motoras e de espaço do outro para realizar intervenções arquitetônicas; mas se não tivermos essa abertura atitudinal para acolher o outro em sua especificidade, nós não vamos para frente em nada”, comentou.
Foi percebendo a pouca participação dos cegos nas celebrações e festas da Igreja que a pedagoga e escritora cega Filomena de Almeida pensou em criar a pastoral dos cegos – já ouvia falar na pastoral dos surdos. “Infelizmente, não somos acolhidos nas celebrações pelo total despreparo das pessoas em nos receber”, revelou a escritora. Por sugestão de Dom Fernando, ela ajudou a criar e integrará a CAP da Inclusão. Independente e morando sozinha, a pedagoga está lançando seu segundo livro “Um novo amanhecer” (o primeiro tem como título “Uma mulher de visão”).
Ao final da missa, padre Jurandir anunciou que, a convite de Dom Fernando, o próximo encontro da Pastoral da Inclusão será em uma celebração eucarística presidida mais uma vez pelo arcebispo, na Catedral da Sé, em Olinda.
Pascom AOR







