Em homenagem a Santo Antônio de Lisboa (Pádua)
Por Padre Ewerton Angelo Santana
Presbítero da Arquidiocese de Olinda e Recife
“De Pernambuco, ó Santo Antônio, vós sois o protetor. Da Sé de Olinda ao Recife com louvor, o povo todo vos aclama com amor” (trecho do hino de Santo Antônio).
Bem observou o Padre João Batista Lehmann, em sua clássica obra Na Luz Pérpetua, que “poucos são os Santos que com Santo Antônio poderão rivalizar em popularidade, entre o povo católico. Com grande pompa e alegria lhe celebra a festa, e todos, com confiança a êste Santo se dirigem nas necessidades materiais e espirituais” (1950, p. 570).

Em Pernambuco essa popularidade de Santo Antônio não é menor ou inexistente. Provas vivas disso são os tantos Antônios e Antônias espalhados (as) pelos munícipios pernambucanos. No dia do Santo, os Antônios do Recife não trabalhavam “para passar o dia todo na festa” (Arlégo, 2010, p. 31).
Aliás, junto com Nossa Senhora da Conceição, São Sebastião e São José, o ilustre lisboeta lidera a lista dos padroeiros das cidades pernambucanas. Eis os nomes das localidades que vivem sob os seus auspícios: “Agrestina, Betania, Cabo de Santo Agostinho, Cachoeirinha, Garanhuns, Ibimirim, Inajá, Primavera, Salgueiro, Tacaimbó e Tracunhaém” (Barreto, Pereira, Silva, 2004, p. 84). E é claro: o Recife.
É bem verdade que a devoção a Santo Antônio chega com os próprios colonizadores portugueses. Tamanha era a estima pelo “martelo dos hereges”, que a futura capital de Pernambuco foi chamada primitivamente de Vila de Santo Antônio do Recife (Silva, 2021, p. 13), ao passo que este santo é o primeiro e o verdadeiro padroeiro daquela que já foi chamada de Cidade Maurícia.
Francisco Augusto Pereira da Costa, no décimo volume dos Anais Pernambucanos, fornece valiosas informações e correções sobre a devoção a Santo Antônio nas terras dos altos coqueiros:
Como um dos santos de maior devoção popular entre nós, era o seu dia festiva e solenemente celebrado, e como padroeiro de Pernambuco, gozava das honras militares inerentes a êsse predicamento, principalmente nos tempos coloniais. A fortaleza do Brum arvorava o estandarte real, dava uma salva, e a câmara do senado de Olinda, por determinação do seu Regimento, celebrava a sua festa na catedral, com solenidade, à qual assistia incorporada, com o seu competente pendão, encargo êste que depois se estendeu à câmara do Recife, celebrando a sua festa na igreja matriz do Corpo Santo, como se vê do Diário eclesiástico para o bispado de Pernambuco em 1810 (1983, p. 187).
Pereira da Costa, cujo primeiro centenário de morte celebrou-se em 2023, também destaca que alguns Diários de 1828 e 1830 citavam Santo Antônio como padroeiro de Olinda, “mas o de 1829 o dá como Padroeiro da Província, e assim os demais, de 1831 por diante” (1983, vol. 10, p. 187). Sabe-se que desde a fundação o padroeiro de Olinda é o Senhor Salvador do Mundo, celebrado a cada ano no dia 6 de agosto.

Continua o mesmo autor (1983, vol. 10, p. 187): “Que Santo Antônio é o padroeiro de Pernambuco, e não de Olinda, e do Recife mesmo, como se tem dito algumas vezes, não resta a menor dúvida, não somente pelo que deixamos já consignado, como ainda pelo que consagram êstes versos, estribilho do cântico de um seu antigo novenário:
Milagroso Antônio
Nosso padroeiro
Enche de alegria
Pernambuco inteiro”
De fato, Santo Antônio sempre foi conhecido pela eloquência ao pregar as Sagradas Escrituras que sabia praticamente de cor, como também pelos milagres, sendo justamente por isso que ganhou um adjetivo de “taumaturgo”.
Bárbara Lucas, em Grandes Santos e Figuras Veneráveis, assim se expressa:
S. Antônio é paradoxal. Seus veneradores o consideram um contemplativo enclausurado, quando seu claustro foi o mundo e sua vida se resumiu em atividades de militante e viagens incessantes. Era um aristocrata e tornou-se o advogado dos pobres e oprimidos. Erudito fulgurante e sem rival em seu tempo, tornou-se patrono dos iletrados, o achador de objetos perdidos, o santo dos perdidos miúdos. Um dos maiores Doutôres e pregadores, é hoje invocado para os pequenos e triviais desconfortos, e para os namoros desejados (p. 450).
No direito litúrgico, o dia de Santo Antônio chegou até a ser preceito na então Diocese de Olinda: “O papa Inocêncio XIII, por bula expedida em 27 de janeiro de 1722, declarou de preceito a festa de Santo Antônio”, afirma Pereira da Costa (1983, vol. 10, p. 187).
Uma edição do boletim mensal arquidiocesano de junho de 1934 cita Santo Antônio como padroeiro principal da Arquidiocese de Olinda e Recife, informação perdida e esquecida ao longo dos anos e atualmente, como se pode comprovar pela seguinte citação: “salientamos algumas particularidades como o fato de a cidade do Recife ter oficialmente Santo Antônio como padroeiro e, no entanto, a grande homenageada ser Nossa Senhora do Carmo” (Barreto, Pereira, Silva, 2004, p. 11).
O povo pernambucano, tampouco o recifense, não sabe nem reconhece mais Santo Antônio como o seu orago, fato que nos tira a identidade e despreza a nossa história. Urge recuperar a nossa antiga e preciosa devoção ao ilustre lisboeta. Que o Sínodo Arquidiocesano e as comemorações dos 350 anos da Arquidiocese de Olinda e Recife sejam boas oportunidades para isso.
Referências
ARLÉGO, Edvaldo. Recife: traços do passado. Recife: Edições Edificantes, 2010.
BARRETO, José Ricardo Paes; PERREIRA, Margarida Maria de Souza; SILVA, Abelardo Nogueira de Barros e. Padroeiros Pernambucanos. Recife: Baraúna, 2004.
CONCATHEDRAL do Recife: sua recente inauguração. Boletim mensal. Recife: 1934, p. 142.
COSTA, F. A. Pereira da. Anais Pernambucanos. Recife: FUNDARPE, 1983. 2ª ed. v. 10.
LEHMANN, João Batista. Na luz perpétua.3. ed. Juiz de Fora: livraria editora Lar Católico, 1950. (vol. 1)
SILVA, Leonardo Dantas. Arruando pelo Recife. 2. ed. Recife: Cepe Editora, 2021.







