ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE

Na tarde desta terça-feira (11), dom Nereudo Freire Henrique, bispo auxiliar de Olinda e Recife, representou a REPAM-Brasil (Rede Eclesial Pan-Amazônica) no painel sobre Justiça Climática e a contribuição dos grupos de fé, realizado no stand do Brasil na Zona Azul da COP30. O encontro contou com a presença da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e representantes de diferentes tradições religiosas.

Foto: Site CNBB

Dom Nereudo destacou a importância da fé unida à ação: “Fui convidado pela REPAM para participar da mesa com a ministra Marina Silva. Percebi que, apesar das diferentes religiões, todos têm um olhar para Jesus Cristo, a defesa da vida, principalmente dos mais empobrecidos, e do planeta. A fé sem ação não tem sentido, e é isso que nos leva a cuidar da casa comum, como lembra o Papa Francisco”.

A COP30 acontece até 21 de novembro de 2025, na cidade de Belém, no Pará.

Conheça o conteúdo da exposição feita por dom Nereudo na COP30:

JUSTIÇA CLIMÁTICA E IMPLEMENTAÇÃO DAS NDCS NAS COMUNIDADES DE FÉ DA IGREJA CATÓLICA

COP30, Belém do Pará, Brasil (11 de novembro de 2025)
Dom Nereudo Freire Henrique
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife
Ecônomo da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil)

A justiça climática tornou-se um eixo inevitável da missão evangelizadora da Igreja, na medida em que a crise ambiental impacta diretamente a dignidade humana, a vida comunitária e o equilíbrio da criação. Como lembra o saudoso Papa Francisco, “o desafio urgente de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana” (LS’, 13). Nesse contexto, a implementação das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), previstas no Acordo de Paris, configura um campo privilegiado onde fé, responsabilidade pública e busca do bem comum se encontram.

A Campanha da Fraternidade 2025, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ao tratar do tema “Fraternidade e Ecologia Integral”, reforça que a conversão ecológica deve gerar ação concreta nas comunidades. A perspectiva integral tem uma visão mais cosmocêntrica, diferente do enfoque conservacionista e do ambientalismo produtivista. Nas sugestões, o Texto-Base afirma que “a fé cristã amadurece quando se transforma em compromisso com a vida, com a justiça e com a preservação da criação que Deus confiou à humanidade”. Esse convite dialoga profundamente com a perspectiva das NDCs e com a Doutrina Social da Igreja (DSI).

A crise socioambiental revela seu rosto mais cruel entre os mais pobres. A Laudato si’ n.49 recorda que “os pobres e a terra clamam”, exigindo da comunidade cristã uma conversão integral. A CF reforça essa intuição ao afirmar, que “cuidar da criação é cuidar das pessoas, sobretudo das que mais sofrem com a degradação ambiental”. O direito à vida implica o direito de viver em uma sociedade em que cada um dos seus membros possa satisfazer suas necessidades básicas.

A tradição social da Igreja ilumina esse caminho. No século XIX, o Papa Leão XIII apontava a necessidade de justiça social, de solidariedade e responsabilidade mútua ao afirmar, na Rerum Novarum n.13, que “a natureza ensina que a humanidade deve ajudar-se mutuamente, porque ninguém é autossuficiente”. Hoje, essa ajuda mútua inclui o compromisso ético com a proteção ambiental e o enfrentamento das mudanças climáticas.

As NDCs refletem compromissos assumidos pelos Estados, mas são ineficazes sem o envolvimento da sociedade civil, das instituições e das comunidades de fé. A Laudate Deum n. 31 adverte que “as decisões mais eficazes não serão suficientes se não forem sustentadas por formas de solidariedade que promovam o bem comum”. Portanto, as comunidades cristãs, de forma coerente, devem assumir comportamentos ecologicamente responsáveis, colaborando para que políticas públicas ambientais se tornem instrumentos de justiça e cuidado.

As paróquias, pastorais, movimentos e organismos eclesiais são espaços privilegiados para transformar a consciência ecológica em práticas consistentes, na construção de um futuro sustentável. Ainda na Laudato Si’ n. 210 afirma-se que “a educação ambiental deve preparar-nos para dar aquele salto para o Mistério”, tornando o cuidado com a criação expressão de fé e reverência diante de Deus.

O texto-base da Campanha da Fraternidade desse ano propõe passos concretos, como:

  • integrar a temática ambiental nos processos catequéticos e formativos;
  • assumir práticas de consumo responsável, redução de resíduos e uso consciente de energia;
  • promover mutirões de limpeza, reflorestamento e proteção de nascentes;
  • articular comunidades e paróquias com movimentos sociais e políticas públicas ambientais.

Esses passos são fundamentais e manifestam uma Igreja que vive sua missão de modo profético, encarnado e comprometido com a Casa Comum.

A capilaridade e a proximidade da Igreja com as realidades locais permitem grande incidência. Muitas comunidades acolhem famílias atingidas por enchentes, secas e deslizamentos, expressando concretamente a caridade pastoral. A Fratelli Tutti recorda que a Igreja deve promover “uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade” (FT, 231). A Campanha da Fraternidade deste ano  reforça que “o cuidado da criação passa também por participar das decisões públicas que definem o uso do território, a preservação dos biomas e a proteção das populações vulneráveis”. Assim, a Igreja torna-se ponte entre as políticas climáticas e as necessidades concretas das populações.

Nesse horizonte, a exortação Dilexi Te, do Papa Leão XIV, oferece luz espiritual valiosa ao recordar que “aquele que ama verdadeiramente o Cristo não pode permitir que a obra de Deus seja ferida pela indiferença humana” (Dilexi Te 7), afirmando ainda que “a proteção da criação não é apenas uma questão de prudência, mas expressão do amor que devemos ao Criador e às gerações que virão” (Dilexi Te 12). O documento também exorta que “onde a vida está ameaçada, ali a Igreja deve estar primeiro; onde a criação geme, ali o discípulo de Cristo é chamado a restaurar a esperança” (Dilexi Te 18), concluindo de modo profundamente pastoral que “o cuidado da casa comum é parte do cuidado com a alma humana, pois não há verdadeira santidade onde há descuido pela obra de Deus” (Dilexi Te 22).

A justiça climática é expressão atual e urgente da caridade cristã. O Papa Francisco sintetiza: “não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental” (L S, 139). A Igreja nos convida a “transformar nossa fé em compromisso concreto, cuidando das pessoas e da criação com atitudes diárias e com participação ativa na sociedade. Assim, a implementação de práticas concretas torna-se um testemunho luminoso de que viver o Evangelho hoje significa proteger a criação, defender os vulneráveis e construir um mundo justo, fraterno e sustentável para todos.

Eis a nossa missão!

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