ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE

« No primeiro dia da semana, bem de madrugada, as mulheres foram ao túmulo e levavam os perfumes
que tinham preparado » (Lc 24, 1).


Queridos irmãos e irmãs,

Assim se inicia neste ano C, o Evangelho da vigília pascal que introduz a celebração anual da Páscoa. Na Vigília Pascal, acendemos um fogo que representa a luz da Ressurreição. Isso significa que queremos, com todas as pessoas famintas e sedentas de justiça e de paz, acender sobre esta terra o fogo novo da paz e da solidariedade. Assim, somos convidados a atualizar e continuar, hoje, a caminhada das santas mulheres que, naquela madrugada do domingo, iam ao túmulo de Jesus para perfumar o seu corpo. Ali, elas ouviram os mensageiros de Deus e se tornaram as primeiras testemunhas da ressurreição.  

É esta mesma missão que, agora, nos une para espalharmos amor e esperança por este mundo marcado por tantas injustiças e pela naturalização do ódio e da violência. Há quase 60 anos, na 5ª feira santa, 11 de abril de 1963, o papa João XXIII assinava a encíclica Pacem in Terris. Nesta encíclica, pela primeira vez na história, um papa se dirigia não apenas aos bispos, padres e comunidades católicas, mas a todas as pessoas de boa vontade. Ali, João XXIII já afirmava que a paz no mundo supõe que todo ser humano tenha assegurados os seus direitos fundamentais e ele insiste exatamente naquilo que quase 60 anos depois o papa Francisco tem chamado os três T: o direito à Terra, Teto e Trabalho que são fundamentais para que se garantam os direitos à alimentação, à saúde e à educação (cf. Pacem in Terris, 11). Nessa carta, João XXIII também já antecipava o que o papa Francisco, agora, repete em relação às guerras atuais: “os conflitos entre os povos devem ser resolvidos com negociações e diálogo e não com a força das armas” (Cf. Pacem in Terris, 125).  

Na mesma linha, em nossos dias, o papa Francisco insiste que só o diálogo e a educação podem transformar o mundo. A nossa Campanha da Fraternidade 2022 procura se inserir no Pacto Educativo Global, proposto pelo papa.

Nossa arquidiocese está unida na preparação do XVIII Congresso Eucarístico Nacional, que faremos no próximo mês de novembro. No entanto, de nada adiantará preparar os locais de reunião, organizar com esmero para que funcionem bem todas as atividades previstas para o Congresso, se não aceitarmos preparar os nossos corações. O esforço maior deve ser o de suscitar em nossa Igreja e na sociedade, o que, no 52º Congresso Eucarístico em Budapeste, Hungria, o papa Francisco chamou de “cultura eucarística”, ao afirmar: “A celebração da Eucaristia torna-se incubadora das atitudes que geram uma cultura eucarística, porque impele a transformar em gestos e comportamentos de vida a graça de Cristo que se doou totalmente. (…) A Eucaristia é fonte que se traduz também em cultura eucarística, capaz de inspirar os homens e as mulheres de boa vontade nos âmbitos da caridade, da solidariedade, da paz, da família e do cuidado com a criação” (Cf. https://pontosj.pt/especial/por-uma-cultura-eucaristica/).

Sediar um congresso eucarístico como é tarefa da nossa Igreja particular supõe, antes de mais nada, que trabalhemos com afinco e coragem pela unidade na diversidade. A diversidade de sensibilidades e de orientações eclesiais, sociais e políticas é legítima. Na 1ª carta aos coríntios, é quando vai falar da instituição da eucaristia que São Paulo adverte a comunidade para ir além das divisões. Ele chega a comentar que as divisões são naturais e até certo ponto, positivas, para que o espírito de cada um seja comprovado (Cf. 1 Co 11, 19).  No entanto, é preciso evitar a divisão, em tudo o que diz respeito ao essencial da fé e do amor. Para isso, é necessária uma educação permanente para o diálogo, como nos ensina a Campanha da Fraternidade deste ano: “Fala com sabedoria, ensina com amor” (Pr 21, 26).

É neste espírito que o papa Francisco nos convida para entrarmos no atual processo sinodal, que não apenas prepara o próximo Sínodo dos Bispos, a ser realizado no próximo ano e sim faz da sinodalidade um jeito novo de sermos Igreja. O suporte de tudo isso é a Boa Nova da Páscoa. Ela nos confirma que o sentido da nossa vida é nos saber amados/as e corresponder a este amor, também amando, como Jesus que amou aos seus até o fim (Jo 13, 1). Na Pacem in Terris, São João XXIII afirmou: “É um imperativo do dever, é uma exigência do amor. Cada cristão deve ser na sociedade humana uma centelha de luz, um foco de amor, um fermento para toda a massa. Tanto mais o será, quanto mais na intimidade de si mesmo viver unido com Deus” (PT 163).

Nesta celebração pascal, o Cristo Ressuscitado nos chama a renovar nosso compromisso de fé e, pela fé, nos doarmos aos irmãos e irmãs, em uma Igreja que se ponha a serviço  da Vida, para que todos e todas tenham vida e vida em abundância e que haja pão em todas as mesas, o pão de cada dia, o pão da irmandade e o pão da vida.

O Cristo ressuscitou realmente e disso somos testemunhas. Aleluia!

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo de Olinda e Recife