Surubim fica a cerca de 120 quilômetros do Recife. A distância pode ser feita em duas horas de carro, mas o aposentado Roque José da Silva, de 64 de anos, conhecido como Lucas da Compesa, levou quatro dias e quatro noites para chegar a Recife. Veio a pé, carregando uma cruz de madeira nas costas, enfrentando sol e chuva. Saiu de Surubim na segunda-feira (14) às 7 horas da manhã e chegou em Recife na sexta-feira (18) às 10 horas. Foi o próprio “Seu Lucas” que fez a cruz, que pesa 37 quilos. O porquê da travessia? Ele mesmo explica.

“Em 2017 levei uma queda no banheiro, ganhei três coágulos na cabeça, operei a cabeça duas vezes, fiquei sem conseguir falar e sem conseguir me mexer”, contou. “Depois de três anos, fiquei bonzinho, e como eu sei que isso foi uma graça de Deus, eu resolvi trazer minha cruz pra igreja”. Seu Lucas conta a história com tranquilidade – nem parece que havia acabado de chegar da “viagem”. Disse que sonhou com uma pessoa pedindo para deixar a cruz na Igreja das Graças em Recife. “Eu nem sabia onde era a igreja, mas vim perguntando e cheguei”.

O pároco, padre Josenildo Ferreira, estava na Cúria Metropolitana quando o pagador de promessas chegou à matriz, então Seu Lucas deixou a cruz no altar e foi até onde ele estava, receber uma bênção. Foi recebido com alegria por ele e pelo bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife, dom Limacêdo Antonio. “O nordestino é assim: todo entrega, todo luta, todo amor”, disse o bispo. “Não há distância para o coração que crê”, comentou dom Limacêdo.
Segundo o pároco, na cruz será gravado o nome de Seu Lucas e ela será usada nas Vias Sacras da Paróquia, como um sacramental. “Toda vez que usarmos a cruz, vamos lembrar de sua caminhada e de seu agradecimento a Deus”. O padre fez também uma reflexão sobre a promessa de Seu Lucas: “Algumas pessoas podem perguntar: como é que se agradece com um sofrimento desse? Mas é que, às vezes, não há palavras certas ou suficientes, e apenas símbolos e gestos são capazes de externar o que está contido em nosso coração”.
Esta não foi a primeira vez que Seu Lucas pagou uma promessa enfrentando a estrada. Em 2013, a aventura foi de moto: 580 quilômetros até Juazeiro, com uma cruz de 54 quilos na garupa, dormindo pelo mato. Em 2019, a cruz tinha 67 quilos. Carregou-a a pé, durante cinco dias, de Surubim até Recife, e ainda subiu o Morro da Conceição para deixá-la aos pés da imagem de Nossa Senhora da Conceição. “Venho com o maior prazer, bem satisfeito, graças a Deus. As pessoas param para me oferecer dinheiro, mas eu não pego não, pego somente água. A minha força é Deus, que me dá fé e coragem, porque é muito difícil, muito pesado”.

Seu Lucas acredita que, a partir de agora, vai poupar sua saúde e descansar. “Posso até ir para outros lugares a pé, mas não penso em carregar outra cruz de madeira não, porque me prejudica muito”, disse. “Mas quem sabe é Deus, Ele é quem diz”, concluiu.
O retorno até Surubim foi feito num carro da prefeitura, que fica à disposição para transporte de pacientes em Tratamento Fora de Domicílio (TFD). O carro estava no Hospital Português e Seu Lucas conseguiu uma vaga para voltar para casa, com o conforto merecido.
O pagador de promessas diz que não precisa de apoio financeiro para suas viagens de fé, mas diante de tantos que o procuram para oferecer ajuda, disponibilizou uma conta bancária para receber doações. Quer reverter o dinheiro recebido em cestas básicas para ajudar os pobres de sua cidade, que tiveram as dificuldades aumentadas por conta da pandemia. Os interessados podem fazer suas doações para Roque José da Silva – Banco Bradesco – Agência 835-4 (Surubim) – Conta 13995-5
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