ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE

Cerca de vinte mil pessoas estão para ser despejadas de suas casas nos municípios de Escada (território da Arquidiocese de Olinda e Recife), Ribeirão, Gameleira, Joaquim Nabuco, Palmares, Catende, Jaqueira e Maraial (territórios da Diocese de Palmares). A sentença de despejo começou a ser cumprida hoje (09/09) em Palmares e os moradores têm 30 dias para deixar suas casas, pagando os custos para derrubá-las, sob risco de multa. O fato é que o projeto da Ferrovia Transnordestina, da Empresa Transnordestina Logística, vai desalojar – em nome do progresso – mais de 4.500 famílias que moram a 15 metros dos trilhos da Rede Ferroviária Federal eixo Recife-Sul, desativada há mais de trinta anos, para nem ao menos reutilizar os trilhos ou o terreno, já que o traçado do projeto é outro. A reintegração de posse dos terrenos foi concedida à Transnordestina em favor do projeto.

O aviso de despejo bateu à porte de Seu Nelito, deficiente visual que mora em Palmares. Se não sair de sua casa e derrubá-la em um mês, vai pagar multa de cem reais por dia. “Não tenho para onde ir, não tenho dinheiro para pagar multa e nem para pagar aluguel, pois vivo de salário mínimo para comprar colírios, remédios e para comer”, disse.

Histórias como a de Seu Nelito estão sendo acompanhadas pela Diocese de Palmares há anos e ganharam reforços no apoio da Arquidiocese de Olinda e Recife. Depois de ter recebido, na semana passada, o pedido de ajuda de uma comissão de moradores da região afetada pelo problema, dom Fernando Saburido promoveu reunião nesta segunda-feira pela manhã, na Cúria Metropolitana, conseguindo apoios importantes: dos deputados federais Raul Henry e Túlio Gadelha, dos deputados estaduais João Paulo Silva e Teresa Leitão, dos prefeitos dos municípios envolvidos, do Ministério Público e de Comissões de Direitos Humanos e de Justiça e Paz para buscar soluções.

Em Frexeiras, distrito de Escada, 80% da população vai ser despejada. O distrito vai, praticamente, desaparecer, porque as casas foram construídas ao longo da linha férrea desativada que corta o lugar. Algumas casas não estão ao lado, mas sobre os trilhos. “Aqui, vai todo mundo pra rua porque ninguém tem pra onde ir, ninguém tem dinheiro pra construir nem comprar outra casa”, disse dona Expedita Maria da Silva.

Após a reunião desta segunda, na Cúria, uma comissão foi formada para tentar barrar o cumprimento da sentença. O assunto vai ser levado ao Ministério do Desenvolvimento Regional, responsável pelo projeto da Transnordestina, que promete servir aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE). Dentre as primeiras opções sugeridas para amenizar o sofrimento da população, estão a indenização pelo despejo, a realocação dos moradores e até a suspensão da sentença. A Igreja considera que não há progresso sem dignidade. Por isso, com articulação e trabalho em defesa dos mais pobres, Dom Fernando espera fazer a vida desses moradores voltar aos trilhos.

André Carneiro Leão, defensor regional dos direitos humanos da Defensoria Pública da União, vai pedir a revisão dos prazos de despejo, diante do interesse público em resolver a questão.

Pascom AOR