ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE

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MISSA DO CRISMA – 2016

Arquidiocese de Olinda e Recife

(Leituras: Is 61,1-3ª.6ª.8b-9 – Ap 1,5-8 – Lc 4,16-21)

 “O Senhor me ungiu e enviou-me para anunciar a boa-nova aos humildes” (Is. 61,1)

 Queridos irmãos e irmãs,

O percurso trilhado durante toda a quaresma, certamente, nos ajudou a chegarmos até aqui. Todos nós, reunidos em oração: representantes do povo de Deus, seminaristas, religiosos/as, diáconos, presbíteros e bispos, somos a expressão viva da unidade eclesial desta Igreja Particular de Olinda e Recife. Esta velha e sempre nova Sé de Olinda, merecedora do nosso respeito e admiração, pela sua história, e o testemunho de tantas vozes proféticas que ecoaram nesse lugar sagrado, ao longo dos séculos, nos congrega hoje para celebrar a unidade e renovar o nosso compromisso com a fé e a missão que abraçamos. Na Pastores Gregis, São João Paulo II assegura que a Missa Crismal é “considerada uma das principais manifestações da plenitude do sacerdócio do bispo e um sinal de íntima união dos presbíteros com ele” (PG 31c). Sejamos, portanto, sempre agradecidos a Deus pelo do chamado que Ele nos fez e, ao mesmo tempo, motivados a construir a unidade, caminhando na obediência e na fraternidade.

Na Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, como já tive oportunidade de citar em minha mensagem para a Quaresma, o Papa Francisco expressa o seu desejo de que “a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus”. Especialmente nós, presbíteros e bispos que, pela graça do sacramento da ordem temos o poder de escutar os penitentes e absolver os pecados em nome do Senhor, precisamos experimentar permanentemente a presença misericordiosa de Deus em nossas vidas. Assim fala o papa aos confessores: “Ser confessor não se improvisa. Tornamo-nos tal quando começamos, nós mesmos, por nos fazer penitentes em busca do perdão. Nunca esqueçamos que ser confessor significa participar da mesma missão de Jesus e ser sinal concreto da continuidade de um amor divino que perdoa e salva. Cada um de nós recebeu o dom do Espírito Santo para o perdão dos pecados; disto somos responsáveis. Nenhum de nós é Senhor do sacramento, mas apenas servo fiel do perdão de Deus”. Planejemos sempre nossa ação pastoral, dedicando tempo para escutar os penitentes e levar-lhes sempre uma palavra de ânimo e esperança para que não desanimem. Que o encontro com o Deus da Misericórdia, que humildemente representamos, nos fortaleça e nos revigore o entusiasmo!

O evangelista Lucas, citando o cap. 61 do Profeta Isaías, nos recorda o início da missão de Jesus que, na sinagoga de Nazaré, sua terra, afirma: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação dos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar o ano da graça do Senhor”. Jesus se identifica com as palavras do profeta Isaías e as assume como seu projeto messiânico. O programa de Jesus prevê a libertação dos marginalizados, sua plena reintegração na sociedade, com a recuperação plena de tudo aquilo de que foram expropriados. A Boa Nova de Jesus consiste numa prática que leve as pessoas marginalizadas à posse da vida plena.

O projeto libertador do Mestre deve modelar o projeto de vida dos discípulos. Todavia, não conseguiremos tornar nosso este programa, se abrirmos mão do nosso compromisso com as obras do alto, dando espaço para as limitadas propostas que o mundo nos oferece. Como escolhidos e enviados para colaborar, mais intimamente, com a missão de Jesus, devemos estar sempre dispostos a renovar nosso propósito e procurar modelar nossa vida a partir da Palavra e do Testemunho d’Aquele que nos chamou e que segue à nossa frente, apontando-nos o caminho. A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium nos ensina que: “Em virtude do Batismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário. Cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja, e do grau de instrução de sua fé, é um sujeito ativo de evangelização, e seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor de suas ações. A nova evangelização deve implicar um novo protagonismo de cada um dos batizados. Esta convicção transforma-se num apelo dirigido a cada cristão, para que ninguém renuncie ao seu compromisso de evangelização, porque se uma pessoa experimentou verdadeiramente o amor do Deus que salva, não precisa de muito tempo de preparação para sair a anuncia-lo” (EG 120). O mundo atual necessita de santos sacerdotes, capazes de testemunhar o que professam, verdadeiros profetas, com espírito missionário, dispostos a dar a vida pela missão, encontrando a sua força na reflexão, na oração e no esforço missionário de amar sem medida.

O texto do Apocalipse, que escutamos na segunda leitura, recorda-nos que Deus fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai. A comunidade cristã é a força positiva que, junto com o Cordeiro, vence os poderes opressores que se instalam na história. Ele fez de nós sacerdotes para Deus, seu Pai. Por meio do Batismo, os cristãos participam do único sacerdócio de Cristo, que consiste em instaurar o Reino de Deus na história. Não importa os nossos limites e infidelidades, importa sim, a disposição de nos levantarmos e recomeçarmos, contando com a força de Deus em nossa vida.

Nesta celebração, por ocasião da renovação das promessas sacerdotais, todos nós, independentemente de tempo de ministério, função eclesial, sabedoria ou santidade, realizaremos o mesmo gesto. Que as respostas proferidas não sejam vazias, mas partam do mais íntimo dos nossos corações e nos recordem o momento solene em que fomos questionados pelo bispo e respondemos com plena convicção e, até, emoção. Naquela memorável ocasião, prometemos, solenemente: desempenhar sempre a missão de sacerdotes como fieis colaboradores da ordem episcopal, apascentando o rebanho do Senhor, sob a direção do Espírito Santo; exercer o ministério da palavra proclamando o evangelho e ensinando a fé católica; celebrar com devoção e fidelidade o ministério de Cristo, sobretudo o Sacrifício Eucarístico; ser fieis à oração, especialmente à Liturgia das Horas, em comunhão com toda a Igreja; unir-nos cada vez mais ao Cristo, que se entregou ao Pai por nós e, finalmente, prometemos respeito e obediência ao bispo diocesano e seus sucessores. Hoje, dia em que Jesus Cristo instituiu a Santa Eucaristia e o Sacerdócio Ministerial, somos convidados a renovar essas promessas, confiados na graça do Deus e no amor à missão.

Ao realizar esse gesto, sobretudo nesse significativo momento em que muitos dos presentes vivem uma nova experiência pastoral, em novas paróquias, nos sintamos motivados a viver com mais entusiasmo ainda as alegrias e os desafios da missão. Devemos ser padres felizes e realizados, porque fazemos aquilo que livremente escolhemos e temos prazer em servir. Devemos ser padres desprendidos, capazes de renunciar a tudo que compromete nosso bem espiritual e pastoral, optando decididamente pela maneira de ser de Jesus. Devemos ser padres incansáveis diante dos desafios da missão. Foi por causa do Reino de Deus que abraçamos esse caminho que passa pela “porta estreita” que nos conduz aos “verdes campos” do encontro com o Deus da alegria que não cessa. Devemos ser padres despojados dos bens materiais e que possamos dar testemunho de simplicidade na maneira de ser e viver. Devemos ser padres sensíveis aos problemas do rebanho que nos foi confiado, sobretudo, das ovelhas mais pobres, enfermas e famintas porque são as preferidas do Bom Pastor. Devemos ser padres profetas, corajosos e destemidos, capazes de enfrentar as adversidades, contando com o Senhor que é o escudo de nossas vidas. Devemos ser padres disponíveis para as necessidades pastorais, na paróquia e nos âmbitos vicarial e arquidiocesano. Assim, estaremos colaborando para a partilha missionária, sem sacrificar demais os colegas mais disponíveis. Finalmente, devemos ser padres de intensa vida espiritual, alimentados pela Eucaristia e sustentados pela oração, porque encontramos nesses valores força para a missão e para a realização plena. Convido, igualmente, os nossos irmãos diáconos, no âmbito de sua competência, a assumirem também esses mesmos propósitos e, dessa maneira, o nosso presbitério será mais forte e solidário.

 O conceito de sacerdócio implica o de consagração, cujo sinal exterior é a unção com o óleo santo. Por isso, a Igreja continua a consagrar o óleo que servirá para assinalar a fronte dos seus filhos e filhas.  Conforme a tradição, nesta Missa iremos consagrar o Santo Crisma para significar o dom do Espírito Santo no Batismo, na Confirmação e na Ordem. Abençoaremos também o óleo para os Catecúmenos e os Enfermos, sinais da força que liberta do mal e sustenta na provação da doença. Estes santos óleos, distribuídos para toda a nossa Arquidiocese, e utilizados até a Páscoa do próximo ano, serão sinal de unidade e fonte de bênçãos, para todos os que com eles forem ungidos.

Acompanhemos com atenção e piedade esse rito, após a renovação das promessas sacerdotais que faremos agora. Voltemos, portanto, com o pensamento e o coração ao entusiasmo do primeiro “sim” proclamado no dia de nossa ordenação presbiteral e diaconal e renovado neste momento com semelhante disposição e entusiasmo.

Irmãos e irmãs no sacerdócio batismal, que esta celebração nos dê a graça de assumirmos, como Jesus, a missão de anunciar o Evangelho da Misericórdia.

Amém!

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB

Arcebispo de Olinda e Recife

Recife, 26 de março de 2016.