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Palavra do Arcebispo

Campanha da Fraternidade e Quaresma: Mensagem de Dom Fernando Saburido

Quaresma, tempo novo de renovação!

“Eis agora o tempo favorável, este é o dia da salvação” (2 Cor 6, 2).

quaresmaEsta palavra que a Igreja nos faz ouvir na celebração da Quarta-feira de Cinzas, nos oferece uma boa motivação para vivermos a Quaresma como tempo novo de renovação de vida e de nossas relações comunitárias. Em Olinda e Recife, Carnaval é sempre um período intenso de festejos e apresentações artísticas. Todos sabem que, para ser bom e pleno de êxitos, o Carnaval tem de ser cuidadosamente preparado durante vários meses. Na primeira carta aos cristãos de Corinto, sede dos antigos jogos olímpicos, Paulo escreve: “Nos estádios, os atletas se submetem a treinamentos rigorosos para ganhar uma copa corruptível. Nós lutamos por uma vitória mais importante. Por isso, também devemos nos preparar, dominar nosso corpo e nos exercitar, pois nossa taça é eterna” (Cf. 1 Cor 9, 25- 27). Possivelmente, se ele vivesse em Olinda ou no Recife de hoje, diria: “Assim como os carnavalescos ensaiam e se submetem a um longo treinamento e ensaios para conquistar um troféu passageiro, empenhemo-nos mais profundamente em ganhar uma alegria que não tem fim”. De fato, há pessoas que brincam o Carnaval, mas já na terça-feira à noite estão sofrendo porque veem se esgotar o período carnavalesco. Temos uma conhecida marcha carnavalesca que lamenta: “Oh! quarta-feira ingrata chega tão depressa só prá contrariar”. A festa cristã é eterna, não tem quarta-feira ingrata.

Vivemos em tempos difíceis, não somente pelas frequentes e cada vez mais graves catástrofes naturais e humanas que atingem nosso planeta, mas também por um mal  interior ao ser humano: a falta de sentido para a vida que atinge grande parte da humanidade e gera muita desorientação, insegurança, angústias e depressões (Cf. Eric Hobsbawm, Tempos interessantes). Diante disso, mais do que nunca, uma tarefa importante das Igrejas é não tanto pretender dar respostas definitivas a questões que atingem a todos nós, mas colocar-se afetuosamente junto com as pessoas na disposição de dialogar e na partilha da nossa experiência espiritual. Assim, podemos reencontrar juntos um sentido novo para o nosso caminhar neste mundo, para a relação de cada um consigo mesmo, com os outros e com todos os seres com os quais formamos uma verdadeira “comunidade de vida”.  No Evangelho de Mateus, que nossa Igreja lê neste ano nos domingos, a primeira palavra de Jesus ao povo é o sermão da montanha que começa pelas bem-aventuranças, ou seja, a proclamação de uma bênção de alegria e felicidade para todas as pessoas que sofrem e estão por baixo: “Felizes os pobres de coração, os pequenos, os aflitos e os que sofrem perseguição por causa da justiça”(Mt 5). Não são felizes pelo fato de sofrerem, mas porque Deus os ama com amor privilegiado e vem transformar a sua sorte.

Na sua sabedoria de mãe, a Igreja criou o tempo da Quaresma para nos preparar adequadamente para a celebração mais profunda da Páscoa. Espiritualmente, a Quaresma não é apenas um tempo para penitências especiais que fazemos durante 40 dias e depois forçosamente somos tentados a deixar. Isso seria como certos regimes alimentares que as pessoas se impõem para emagrecer e como não suportam por muito tempo aquele rigor, depois de algumas semanas o deixam e não somente não conseguem o resultado desejado como chegam a comprometer a saúde. Na Quaresma, somos convidados a nos centrar em mudanças mais profundas. O mais importante é olhar no nosso modo atual de viver tudo aquilo que anda precisando de uma profunda renovação interior. Se você se abrir verdadeira e profundamente à Palavra de Deus, ela penetrará até mesmo em regiões e zonas ocultas do seu ser que até aqui ainda não tinha conseguido tocar. E você se tornará uma pessoa mais sensível e aberta à solidariedade e à comunhão com toda a criação.

Ninguém se renova isoladamente. É à medida que nos abrimos à solidariedade fraterna e nos sentimos participando do caminho comum, que somos envolvidos pelo mesmo Espírito. Nesta Quaresma, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos convida, através da Campanha da Fraternidade, a refletir sobre “Biomas brasileiros e defesa da vida”. Trata-se de mais uma campanha ecológica, prolongando assim a reflexão que tivemos no ano passado sobre “Casa comum nossa responsabilidade”. Convido todos e todas a aprofundar nesta Quaresma a dimensão ecológica da nossa fé e espiritualidade para realmente transformar nossa cultura habitual, ou seja, o nosso modo de lidar com a terra, com a água, com os animais e toda a natureza, sobretudo, o que diz respeito aos dois biomas presentes em nossa região: “Mata Atlântica e Caatinga”. Nós fomos educados a contemplar a Deus presente e atuante na história. Devemos, agora, não deixar esta dimensão fundamental da fé, mas completá-la com a contemplação da presença divina em nós mesmos, em nossos irmãos e irmãs e em cada elemento do universo. Assim, de fato, poderemos com mais sinceridade proclamar em cada Missa: “Os céus e a terra estão cheios da vossa glória”, isto é, dos sinais visíveis da presença divina no meio de nós.
Desejo a todos e todas uma santa e renovadora Quaresma.

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo de Olinda e Recife