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Reflexão XII Domingo Tempo Comum: “A covardia que mata” (Mt 10,26-33)

(Evangelho – Mt 10,26-33)

Não tenhais medo daqueles que matam o corpo.
 

Naquele tempo, disse Jesus a seus apóstolos:
26Não tenhais medo dos homens,
pois nada há de encoberto que não seja revelado,
e nada há de escondido que não seja conhecido.
27O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia;
o que escutais ao pé do ouvido,
proclamai-o sobre os telhados!
28Não tenhais medo daqueles que matam o corpo,
mas não podem matar a alma!
Pelo contrário, temei aquele que pode destruir
a alma e o corpo no inferno!
29Não se vendem dois pardais por algumas moedas?
No entanto, nenhum deles cai no chão
sem o consentimento do vosso Pai.
30Quanto a vós,
até os cabelos da cabeça estão todos contados.
31Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos
pardais.
32Portanto, todo aquele
que se declarar a meu favor diante dos homens,
também eu me declararei em favor dele
diante do meu Pai que está nos céus.
33Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também
eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.

 

                                                                            (Por: Mons. André Vital Félix da Silva, SCJ)

Depois de ter escolhido os 12 discípulos para enviá-los em missão, concedendo-lhes autoridade de expulsar os espíritos imundos e de curar todas as enfermidades (XI Domingo: Mt 10,1s), Jesus não os ilude prometendo-lhes sucesso e honrarias, mas pelo contrário, adverte-os que estão sendo enviados “como ovelhas entre lobos” (Mt 10,16). Assim como o Mestre é perseguido e passará por muitos sofrimentos, também os seus discípulos não terão sorte diferente, pois “Não existe discípulo superior ao Mestre, nem servo superior ao seu senhor” (Mt 10,24). Por isso, o Mestre fala abertamente sobre o que aguarda os seus seguidores; estes devem permanecer conscientes da missão e de suas exigências e consequências; portanto, não podem ter medo de ninguém e de nada.

Por três vezes, na perícope de hoje, Jesus utiliza a expressão “não temais”. O verbo “temer” na Sagrada Escritura (AT: yare’; NT: phobeo) tem uma rica gama de significados. De acordo com o contexto, pode significar tanto ter medo, pavor que leva à fuga, como reverenciar ou ter temor religioso que leva à comunhão.

Apesar das diversas conotações, pode-se dizer que há um aspecto em comum a todos esses significados: o reconhecimento de algo superior, poderoso, diante do qual se curvar, reverenciar ou se submeter. Se o motivo do curvar-se é a humildade, então a atitude é positiva, é um temor reverencial, mas se for a covardia que leva à subserviência, então deixa de ser virtude coerente e torna-se uma corrupção da prudência.

 

É importante considerar que essas palavras estão sendo dirigidas àqueles os quais Jesus constituiu seus discípulos, os que já tinham sido confirmados na vocação, já tinham feito a experiência da convivência com o Mestre, de quem não receberam apenas instruções teóricas, mas estavam sendo formados através de atitudes corajosas e coerentes, cuja autoridade era incontestável. Desta forma, para continuar a seguir Jesus, era preciso superar o medo da perseguição e da morte, inclusive as oposições dos próprios familiares (ver Mt 10,34s). Jesus ilustra o seu ensinamento inspirando-se nos costumes do seu tempo: “O que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados”.  Vale salientar que nas sinagogas geralmente aquele que ensinava falava em voz baixa a um locutor (turgeman) que por sua vez repetia em voz alta para o povo. Era um dispositivo didático que sublinhava o aspecto de revelação do ensinamento, isto é, o oculto (grego krypton: escondido) que devia ser conhecido, revelado. O ensinamento de Jesus deve se encarnar, se concretizar, por isso, não se perde em teorias invisíveis, mas assume expressões concretas, palpáveis, assim como a luz que torna visível tudo aquilo que ela ilumina. A referência ao publicar “sobre os telhados” reflete a prática antiga de nas sextas-feiras à tarde o ministro da sinagoga (hazzan) subir no terraço (telhado) mais alto da cidade para tocar a trombeta avisando aos camponeses, que se encontravam nos campos, que era hora de voltarem para casa antes de iniciar o sábado, pois estava se aproximando o pôr do sol.

Portanto, os discípulos, enviados por Jesus, eram os verdadeiros arautos, isto é, os anunciadores de tudo aquilo que aprenderam na intimidade com o Mestre (“ao pé do ouvido”). Por outro lado, à medida que os discípulos realizarem a missão, irão naturalmente enfrentar as oposições, perseguições e toda sorte de obstáculos. Porém, já conheciam as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12) e, portanto, estavam conscientes de que a perseguição e a morte eram apenas ocasiões para fazerem a experiência da veracidade do ensinamento de Jesus: “Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentido, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus”(Mt 5,10-11).

Contudo, a coragem em oposição à covardia não se enraíza numa ousadia puramente humana. Mas é, antes de tudo, confiança em Deus, que é solícito para com toda a sua criação, até mesmo para os seres considerados de pouco valor: “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem consentimento do vosso Pai”. Jesus não diz que Deus cuida dos pardais porque são seus filhos. Portanto, se Ele tem cuidado para com todas as suas criaturas, quanto maior não será o seu cuidado para com os seus filhos: “Vós valeis mais do que muitos pardais”.

 

A coragem do testemunho brota da convicção de ser filho de Deus; por isso, não há o que temer, naturalmente o pai é o primeiro defensor e protetor dos seus filhos. Contudo, deve-se temer a rejeição a essa nova condição revelada por Jesus. Pois, o Mestre, ao ensinar a oração por excelência, inaugurou um novo e definitivo modo de relacionar-se com Deus, chamando-o de Pai. Reconhecer-se filho de Deus e viver como tal diante dos homens é declarar-se a favor de Jesus, pois para isso Ele veio: conduzir todos os filhos dispersos a Deus, seu Pai, estabelecer a fraternidade universal. E para realizar essa missão não poupou nenhum sacrifício, obedecendo ao Pai, e dando a vida pelos homens.

Negar Jesus diante dos homens significa recusar a adoção filial, é colocar-se fora da família de Deus, é o homem que se fecha no egoísmo e, por conseguinte, não pode ser declarado diante de Deus um filho seu, pois optou, por covardia, pela morte, uma vez que não teve coragem de morrer para testemunhar sua fé em Jesus, aquele que nos garante dar vida em plenitude.

 

Mons. André Vital Félix da Silva, SCJ. Nomeado Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte-CE em 10 de maio de 2017. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB e Caruaru-PE.

 

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