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Palavra do Arcebispo

Palavra do Arcebispo

A Palavra do Arcebispo

Junho de 2017

Solenidade da Santíssima Trindade

Homilia proferida no Santuário Nacional de Aparecida (SP)

 Celebramos, hoje, a fonte de todo o mistério de nossa fé: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Se nós desejamos compreender melhor este mistério, é para que possamos crer com mais alegria e nos sentir mais intimamente unidos às três pessoas divinas que, sem se confundirem uma com a outra, são sempre um só Deus. Entender para crer e crer para entender, nos diria Santo Agostinho, para que a razão ame e o coração abrace e viva a misericórdia do Pai, a ternura do Filho e a sabedoria do Espírito Santo.
Crer é mais do que não duvidar. Não basta dizer que acreditamos em Deus e, com isso, pensar que temos fé. Escutamos as pessoas dizerem: eu tenho muita fé em Deus. De fato, não duvidam da existência de Deus, veem os sinais de Deus por toda parte, mas isso não quer dizer que tenham fé. A missão da Igreja é ir ao encontro desses irmãos e irmãs que já têm o coração aberto para Deus e comunicar-lhe a alegria da fé: passar da distância para a proximidade, vir para junto do Senhor, caminhar de perto com os outros discípulos e discípulas, na estrada do Evangelho. A fé é mais do que a admiração pelas qualidades de alguém que nos impressiona; é o desejo de estabelecer vínculos, é a coragem de entregar o próprio coração, pois a fé é o amor em ato, como se deu na vida de Moisés.
Como ouvimos na primeira leitura, esse servo de Deus, se levanta quando era noite ainda. O sol – que é Cristo – existiu desde sempre, mas não havia nascido ainda no horizonte da salvação, no seio da Virgem Maria. O mesmo ocorria com o Espírito: desde sempre, foi ele que deu vida a tudo, mas, como não havíamos aprendido a conjugar o Verbo, era difícil entender que o Deus do universo pudesse habitar na sua criatura e nos amar tanto. Moisés invoca o nome do Senhor e pede ao Senhor que caminhe conosco. Deus se faz companheiro nosso, na jornada de cada dia, sujeita a tantos tropeços e quedas. Ele se submete ao nosso ritmo, às vezes, ousado, às vezes, cansado, mas um ritmo que deve ser constante, não importa a velocidade, pois, nessa caminhada, todos perdem quando somente uns ganham e se beneficiam. Por isso, não podemos entender o mistério da Santíssima Trindade sem entendermos que o Pai e o Filho e o Espírito Santo desejam a comunhão conosco, antes que quiséssemos estar em comunhão com eles. Uma comunhão que se concretiza com a vida.
Quando organizamos esta peregrinação da Arquidiocese de Olinda e Recife ao Santuário de Aparecida, para celebrarmos o Ano Mariano, não imaginávamos que, hoje, nosso Pernambuco estaria enfrentando uma situação tão difícil, causada pelas enchentes dos últimos dias. Não podemos dizer que estamos em comunhão com o Pai e o Filho e o Espírito Santo se não traduzimos na solidariedade a nossa comunhão com os irmãos e irmãs. Quando os primeiros teólogos cristãos quiserem compreender como é que três pessoas realmente distintas poderiam estar em tamanha sintonia, numa sincronia perfeita, ficaram extasiados como poderia ser tão simples a explicação: o Pai e o Filho e o Espírito Santo vivem em movimento de pericorese, ou seja, eles vivem na alegria de uma ciranda, que nós pernambucanos conhecemos tão bem e bem realizamos quando permitimos que alguém mais venha para nossa comunhão e se aproxime de nós.
Deus enviou seu Filho ao mundo para que o mundo seja salvo por ele; quem não crê já está condenado porque não acreditou que o nome do Filho unigênito é amor, é verdade, caridade, justiça e paz. O nome do Filho unigênito indica sua missão: Jesus é o salvador da vida humana, na sua integralidade, e devemos nos preocupar se, quando anunciamos o nome de Jesus, estamos realizando a tarefa de fazer o encontro dos homens e mulheres com o Pai. O nome não é simplesmente um fonema, um som que singulariza uma pessoa; esse nome é alguém, é a presença que dá sentido ao amor, que traz alegria para nossas buscas, que nos motiva a trabalhar em nosso aperfeiçoamento, como disse Paulo, na segunda leitura. Esse nome não é uma filosofia, é a companhia que carrega outras duas e tantas para nossa estrada, às vezes tão difícil, de viver em paz e cultivar a concórdia, condições indispensáveis para que nosso egoísmo não domine sobre nós.
Jesus, um nome que personifica a bondade do Pai e o vigor do Espírito, nome que nos dá a uma identidade: ele, filho de Deus, nós também. Partilhou conosco sua mãe, a quem suplicamos que caminhe conosco, ensinando-nos a ser homens e mulheres de atitude como foi ela, nas bodas de Caná. Invocada como padroeira do Brasil, encoraje-nos a não perder a esperança em nós mesmos, que somos responsáveis por um Brasil de feições menos desumanas e injustas, que não seja divulgado maciçamente na imprensa nacional e internacional como uma terra de impunidade, de um povo sem ética. Nossa fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo nunca foi tão decisiva quanto agora, na hora presente, para determinar as nossas atitudes pessoais e sociais, sem paixões, conduzidos somente por aquele que veio nos tirar da marginalidade do pecado e dar-nos a alegria que transborda da esperança que caracteriza o seu ser.

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife

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