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Reflexão VI Domingo da Páscoa: “Quem ama nunca abandona!” (Jo 14,15-21)

Reflexão VI Domingo da Páscoa: “Quem ama nunca abandona!” (Jo 14,15-21)

(Evangelho – Jo 14,15-21)

Eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Defensor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos:
15 Se me amais, guardareis os meus mandamentos,
16 e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor,
para que permaneça sempre convosco:
17 o Espírito da Verdade,
que o mundo não é capaz de receber,
porque não o vê nem o conhece.
Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós
e estará dentro de vós.
18Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós.
19Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá,
mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis.
20Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai
e vós em mim e eu em vós.
21Quem acolheu os meus mandamentos e os observa,
esse me ama.
Ora, quem me ama, será amado por meu Pai,
e eu o amarei e me manifestarei a ele.

 

                                                                           (Por: Mons. André Vital Félix da Silva, SCJ)

A partir deste VI Domingo entramos na fase conclusiva do Tempo Pascal, pois iniciamos a preparação mais imediata para a Solenidade de Pentecostes; por isso esse tom de despedida de Jesus. Porém, Jesus ao anunciar a sua ida para o Pai, não está dizendo que abandonará os seus discípulos: “Não vos deixarei órfãos” (grego: orfanos destituído de pai, sem defesa natural). Mas pelo contrário, garante-lhes ainda mais forte e operante a sua presença através do Espírito Santo, o Espírito da verdade, que permanecendo nos discípulos, faz deles a morada de Deus no mundo.

No domingo passado, o Mestre assegurava aos discípulos que na casa do Pai havia muitas moradas, porém, para que os discípulos pudessem habitar para sempre na casa do Pai, era preciso que aqui na terra eles mesmos se tornassem as muitas moradas do Filho: “Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós”. Contudo, só o amor assegura a permanência de Jesus nos seus discípulos. E amar a Jesus é mais do que manifestar-lhe sentimentos; antes de tudo, é obedecer aos seus mandamentos: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”. O amor exige expressões concretas que tornem visíveis as suas raízes invisíveis.

Por outro lado, Jesus sabe que os seus discípulos de todos os tempos não são capazes de sozinhos perseverar na obediência aos seus mandamentos, por isso intercede por eles: “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro defensor, para que permaneça convosco”. A promessa de Jesus é o anúncio da vinda do Espírito Santo ao qual o Mestre chama de “outro defensor” (grego paráklitos, derivado do verbo para-kaleo, chamar para perto, significando “aquele que vem para perto para defender”, o advogado, ad-vocatus, chamado para). Aqui não se deve entender o defensor apenas como aquele que se interpõe para garantir uma defesa física, impedindo ataques ou investidas que provoquem um mal material. Mas o “outro defensor” (paráklitos) é chamado de “Espírito da verdade”, pois a sua missão é conduzir os discípulos do Ressuscitado ao pleno conhecimento de Deus, a fim de que eles façam a experiência do verdadeiro amor, aquele que dá vida, e alcancem essa vida em abundância.

A presença do Espírito Santo no seio da comunidade do Ressuscitado e no coração de cada um de seus membros garante a principal defesa que impedirá a sua destruição, isto é, conservará a verdade revelada por Jesus. O Espírito Santo, o outro paráclito (junto para defender) abre a mente dos discípulos para enxergar a verdade que o mundo não pode suportar, pois esse prefere a mentira, isto é, o meio mais eficaz para aprisionar as pessoas, explorando-as ao máximo, de forma sutil e avassaladora, uma vez que escraviza as mentes, reforçando as suas correntes com sensações prazerosas, ainda que custe um alto preço, a dependência viciosa.

Conservar as pessoas na ignorância, não conhecedoras da verdade, fazendo-as crer e aderir a mentiras, é a condição fundamental para torná-las presas fáceis de todo tipo de dominação, sobretudo de ideologias materialistas que prometem a liberdade e a felicidade ao ser humano, mas exigindo-lhe um custo muito alto, isto é, destruindo a sua capacidade de crer, de ter esperança numa vida que não se esgota aqui e agora. Consequentemente, a ausência da verdade torna o ser humano um animal movido por instintos, egoísta e avarento.

O Espírito da verdade, o outro defensor, não é prometido para criar muralhas emocionais de enganadoras seguranças, mas vem para defender a verdadeira experiência religiosa, ou seja, conduzir o coração humano à sua mais genuína vocação, tornar-se morada de Deus, criando nele uma perspectiva de um dia habitar plenamente com Deus na sua morada. Por isso, o Espírito da verdade se opõe ao “pai da mentira”, o príncipe desse mundo (Jo 8,44; 15,26; 16,13), cujos filhos são denunciados por Jesus. Figuram em primeiro lugar como “filhos do pai da mentira” aqueles que se dizem religiosos, conhecedores da Lei, filhos de Abraão, mas não reconhecem a verdade, pois matam a vida, a começar pela condenação à morte do próprio Senhor da vida.

 

Mais adiante Jesus explicitará a missão do Espírito da verdade: “Ele arguirá (grego elegxei: convencerá) o mundo a respeito do pecado, da justiça e do julgamento” (Jo 16,8). O pecado, por sua vez, é a incredulidade, o total fechamento do coração humano ao amor de Deus. A fé cristã não afirma apenas a existência de um Deus que exige ser reconhecido e adorado, mas a fé cristã implica acreditar que Deus ama incondicionalmente, até quem não O ama. Portanto, quando alguém opta por uma vida egoísta, encerrada no seu horizonte estreito, onde não há lugar para a fraternidade, o amor ao próximo, torna-se incapaz de crer em Deus, pois sente-se o senhor absoluto de tudo e, por conseguinte, não reconhece no outro um semelhante que deve ser acolhido como irmão, e amado como filho do mesmo Pai. O Espírito da verdade também evidenciará a justiça, esta é o cumprimento da vontade de Deus. Jesus é o verdadeiro filho de Deus porque realiza sempre a vontade do Pai. A sua volta para o Pai é a confirmação de que cumpriu plenamente a sua missão. Por fim, diz respeito à missão do Espírito da verdade consolidar nos discípulos a certeza de que: “O príncipe desse mundo está julgado” (Jo 16,11). Não há dúvida de quem ganhará a batalha. O cristão, ungido pelo Espírito da verdade, não se pergunta se vale a pena lutar contra o mal, contra as injustiças e toda forma de morte, pois não sabe qual será o fim. Se por acaso alguém que diz crer no amor de Deus tiver dúvida de quem vence, este já entrará no campo de batalha derrotado.

A perseverança na fé, através da vivência do amor, é a prova mais convincente de que não somos órfãos, temos um Pai que nos ama. Não estamos sozinhos, pois o amor não abandona, uma vez que estabelece morada permanente; essa é a verdade que o Filho revelou, essa é a verdade que em nós o Espírito conserva e defende.

 

Mons. André Vital Félix da Silva, SCJ. Nomeado em 10 de maio de 2017 Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte-CE. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB e Caruaru-PE.

 

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