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Reflexão Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor: “Quem é este Rei desarmado que abala a terra?” (Mt 21,1-11; 27,11-54)

Reflexão Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor: “Quem é este Rei desarmado que abala a terra?” (Mt 21,1-11; 27,11-54)

(Evangelho Mt 21,1-11; 27,11-54)

(Procissão – Mt. 21, 1-11)

Bendito o que vem em nome do Senhor.

1Jesus e seus discípulos aproximaram-se de Jerusalém
e chegaram a Betfagé, no monte das Oliveiras.
Então Jesus enviou dois discípulos,
2dizendo-lhes: ‘Ide até o povoado que está ali na
frente, e logo encontrareis uma jumenta amarrada,
e com ela um jumentinho.
Desamarrai-a e trazei-os a mim!
3Se alguém vos disser alguma coisa, direis:
‘O Senhor precisa deles, mas logo os devolverá’.’
4Isso aconteceu para se cumprir
o que foi dito pelo profeta:
5’Dizei à filha de Sião: Eis que o teu rei vem a ti,
manso e montado num jumento,
num jumentinho, num potro de jumenta.’
6Então os discípulos foram
e fizeram como Jesus lhes havia mandado.
7Trouxeram a jumenta e o jumentinho
e puseram sobre eles suas vestes, e Jesus montou.
8A numerosa multidão estendeu suas vestes pelo caminho,
enquanto outros cortavam ramos das árvores,
e os espalhavam pelo caminho.
9As multidões que iam na frente de Jesus
e os que o seguiam, gritavam:
‘Hosana ao Filho de Davi!
Bendito o que vem em nome do Senhor!
Hosana no mais alto dos céus!’
10Quando Jesus entrou em Jerusalém
a cidade inteira se agitou, e diziam:
‘Quem é este homem?’
11E as multidões respondiam:
‘Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galiléia.’

(Mt 27,11-54)

27 Os soldados do governador conduziram Jesus para o pretório e rodearam-no com todo o pelotão.
28 Arrancaram-lhe as vestes e colocaram-lhe um manto escarlate.
29 Depois, trançaram uma coroa de espinhos, meteram-lha na cabeça e puseram-lhe na mão uma vara. Dobrando os joelhos diante dele, diziam com escárnio: Salve, rei dos judeus!
30 Cuspiam-lhe no rosto e, tomando da vara, davam-lhe golpes na cabeça.
31 Depois de escarnecerem dele, tiraram-lhe o manto e entregaram-lhe as vestes. Em seguida, levaram-no para o crucificar.
32 Saindo, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, a quem obrigaram a levar a cruz de Jesus.
33 Chegaram ao lugar chamado Gólgota, isto é, lugar do crânio.
34 Deram-lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas se recusou a beber.
35 Depois de o haverem crucificado, dividiram suas vestes entre si, tirando a sorte. Cumpriu-se assim a profecia do profeta: Repartiram entre si minhas vestes e sobre meu manto lançaram a sorte (Sl 21,19).
36 Sentaram-se e montaram guarda.
37 Por cima de sua cabeça penduraram um escrito trazendo o motivo de sua crucificação: Este é Jesus, o rei dos judeus.
38 Ao mesmo tempo foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda.
39 Os que passavam o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam:
40 Tu, que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!
41 Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam dele:
42 Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nele!
43 Confiou em Deus, Deus o livre agora, se o ama, porque ele disse: Eu sou o Filho de Deus!
44 E os ladrões, crucificados com ele, também o ultrajavam.
45 Desde a hora sexta até a nona, cobriu-se toda a terra de trevas.
46 Próximo da hora nona, Jesus exclamou em voz forte: Eli, Eli, lammá sabactáni? – o que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
47 A estas palavras, alguns dos que lá estavam diziam: Ele chama por Elias.
48 Imediatamente um deles tomou uma esponja, embebeu-a em vinagre e apresentou-lha na ponta de uma vara para que bebesse.
49 Os outros diziam: Deixa! Vejamos se Elias virá socorrê-lo.
50 Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma.
51 E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas.
52 Os sepulcros se abriram e os corpos de muitos justos ressuscitaram.
53 Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas.
54 O centurião e seus homens que montavam guarda a Jesus, diante do estremecimento da terra e de tudo o que se passava, disseram entre si, possuídos de grande temor: Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!

 

Homilia Domingo Ramos

(Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ)

A liturgia deste Domingo, introduzindo-nos na “Grande Semana”, faz-nos reviver in memoriam a entrada em Jerusalém de Jesus, o Rei manso e humilde; é uma profecia em ato para anunciar a sua vitoriosa ressurreição. Mas também nos faz mergulhar profundamente no mistério de sua paixão e morte de cruz, condição sem a qual não teria nenhum sentido nem eficácia a celebração da sua ressurreição. Pois proclamar a ressurreição de alguém cujo sofrimento e morte para nós são apenas vagas informações, visto que não nos tornamos participantes dessa sua dura realidade, não passaria de uma experiência artificial e alienante. Contudo, a celebração do Mistério Pascal não é simplesmente uma festa horizontal onde celebramos as nossas vitórias, mas é, antes de tudo, proclamação da vitória de Deus que nos alcança. Ele que não abandonou o seu Filho à morte, mas o ressuscitou, encoraja-nos a lutar pela vida, crendo que a morte foi destruída e, no seu Filho morto e ressuscitado, temos a garantia da nossa ressurreição.

A tentação de dar um salto para a manhã da ressurreição, evitando a tarde do calvário e a noite do sepulcro, é uma das piores traições que se pode cometer contra o Mestre, que não desceu covardemente da cruz nem contornou o sepulcro, mas entregou a sua vida para que tivéssemos vida, e vida em plenitude. Hoje infelizmente há uma forte tendência entre nós de esvaziamento das expressões simbólico-litúrgicas da celebração da Paixão e Morte do Cordeiro vitorioso, tão caras ao povo de Deus que, na sua naturalidade e espontaneidade religiosa, não tem dificuldade de sintonizar-se com o mistério da dor do Cristo, assumindo-a como sua, para alegrar-se com a sua ressurreição, garantia da sua.

procissão sr morto

Por causa de um racionalismo devastador do universo simbólico, muitos eclesiásticos negam ao povo o direito de contemplar a dor e o sofrimento do Bom Jesus dos Passos, beijar a sua cruz, solidarizar-se com a Mãe Dolorosa, que recebe nos braços o seu filho morto e o deposita no sepulcro. Será que a motivação é simplesmente evitar que se caia no risco de um sentimentalismo alienante? Para além das indiscutíveis e legítimas preocupações diante de desvios da finalidade pedagógica da liturgia e de práticas devocionais, a resistência em colocar-se diante do homem das dores (1ª Leitura) é sintoma de um medo de ter que assumir também o seu caminho. Assumindo a nossa condição, Jesus nos fez participantes da sua dignidade de Filho de Deus, obediente até a morte de cruz (2ª Leitura), por isso “se com ele morremos, com ele reinaremos”.

A entrada de Jesus em Jerusalém deixa a cidade agitada; as aclamações da multidão que o seguia provocam uma pergunta: “Quem é este homem?” As pessoas tomadas de entusiasmo respondem: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia”. Porém, não são os seus gritos frenéticos que dirão quem ele é, mas é o próprio Jesus que, com o seu silêncio e suas poucas palavras, dará a resposta definitiva sobre a sua identidade e sua missão.

Mateus constrói a narração da paixão e morte de Jesus tendo presente esta pergunta. Os vários personagens tentam responder. Pilatos perguntando: “Tu és o rei dos Judeus?” não escuta de Jesus uma resposta, mas a repetição do que acabava de dizer. Isto é uma tentativa de levar Pilatos à consciência do que estava perguntando. Sendo um pagão, não saberia nunca o que significa, segundo as Escrituras, o Rei dos Judeus, o ungido de Deus (Mashiah). Respondendo sim ou não, Jesus não tiraria a dúvida de Pilatos, por isso o seu silêncio. Em seguida, Pilatos quer que o povo responda que tipo de Rei eles preferem: Jesus de Nazaré ou Jesus Barrabás (em alguns manuscritos o nome de Barrabás é composto com Jesus). Mais do que um prisioneiro famoso, Barrabás é simbolicamente o falso messias (aramaico Bar: filho, Abbá: pai). Enquanto pedem a liberdade para Barrabás, o assassino, o falso “filho do Pai”, gritam a morte para Jesus, que é o “Deus que salva”. Por sua vez, Simão cirineu não é obrigado apenas a dar uma ajuda ao condenado, mas também ele deve responder quem é Jesus: é o mestre cujo discípulo deve estar disposto a aceitar a carregar também a sua cruz e seguir seus passos (Mt 16,24).

Crucifixação

Quatro grupos manifestam a sua ignorância diante de Jesus: os soldados do governador que escarnecem da sua realeza; os transeuntes que injuriam a sua divindade; os sumos sacerdotes que ridicularizam a sua humanidade (filho de Deus encarnado); e, por fim, os ladrões que o insultavam.

Não são as palavras de Jesus dirigidas a nenhum desses grupos que vão confirmar quem ele é. Mas aquilo que Ele diz ao Pai: “Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?”  Certamente essas palavras são as mais escandalosas que podemos ouvir de Jesus. Mas é fundamental considerar duas coisas para evitar conclusões precipitadas. Antes de tudo, é uma pergunta diante das injúrias, blasfêmias e insultos; pois todos estão afirmando que Deus o abandonou. Ademais, essas palavras iniciam o Salmo 21 (22), que rezamos na liturgia de hoje, portanto, o evangelista supõe que seus leitores conheçam o salmo completo. Não é um salmo de desespero, mas de confiança inabalável em Javé: “Sim, pois Ele não desprezou, não desdenhou a pobreza do pobre, nem lhe ocultou sua face, mas ouviu-o, quando a ele gritou” (Sl 21,25). Assim como ao entrar em Jerusalém toda a cidade ficou agitada, agora toda a terra se abalou por ocasião de sua morte, por isso o centurião proclamará: “Ele era mesmo o Filho de Deus”.

Reviver os passos da paixão, morte e ressurreição de Jesus neste tempo solene é mergulhar no seu mistério a fim de responder a pergunta fundamental: “Quem é esse homem?” Caso contrário, não acreditaremos que ele é verdadeiramente o Filho de Deus; sem assumir a sua cruz, não participaremos de sua ressurreição.

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Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB e Caruaru-PE. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

 

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